A Copa de 2026 começa em 11 de junho com Estados Unidos, México e Canadá dividindo a sede e Donald Trump na tribuna do SoFi Stadium, em Inglewood, para a abertura. É a primeira vez na história que o torneio reúne 48 seleções e três países anfitriões — e a primeira em que o país hospedeiro principal opera, no mesmo semestre, fronteira militarizada e revogação de vistos para profissionais classificados como risco político. A FIFA negociou com a Casa Branca um corredor diplomático para jogadores e árbitros. Para o resto da caravana — torcedores, jornalistas, ambulantes — a entrada nos EUA virou loteria.

O torneio é o primeiro grande teste internacional do segundo mandato. A política de vistos de junho já barrou jornalistas iranianos credenciados pela FIFA, manteve em revisão pedidos de delegações da Argélia e do Senegal, e reforçou a Patrulha de Fronteira em Tijuana com 4 mil agentes adicionais para o jogo México-Polônia, em Guadalajara. O Departamento de Segurança Interna anunciou em maio que portadores de visto B-1/B-2 com origem em 19 países africanos passariam por entrevista presencial obrigatória. A medida atinge desproporcionalmente a torcida de Senegal, Egito, Marrocos, Costa do Marfim e Camarões — as cinco seleções africanas classificadas.

A leitura que importa para o Brasil é dupla. De um lado, CBF e governo Lula negociaram, em fevereiro, um canal bilateral para torcedores brasileiros com visto válido — concessão não estendida a africanos nem a venezuelanos. De outro, a delegação brasileira chega aos EUA com o time mais negro de uma Copa desde 1970: dezessete dos vinte e seis convocados por Dorival Júnior são pretos ou pardos. Vinícius Júnior, Endrick e Estêvão jogarão num país onde a administração federal desmontou, no primeiro semestre, os programas de DEI das agências esportivas que faziam interlocução com a US Soccer.

O boicote é parcial e seletivo. África do Sul, Argélia e Irã anunciaram em abril que não enviariam representação oficial de governo às partidas, mantendo apenas as delegações esportivas. Lula confirmou presença na semifinal, se houver Brasil — gesto que o Itamaraty descreve como pragmatismo e a oposição lê como concessão. A União Africana publicou em 12 de maio um comunicado pedindo à FIFA que revisse o critério de sede para 2030. Gianni Infantino respondeu, em entrevista à ESPN, que a entidade não interfere em política migratória de país-sede.

O que está em jogo é o uso do futebol como palco de soberania racializada. Trump quer a Copa como vitrine de força — fronteira fechada, ordem interna, espetáculo controlado. A FIFA quer a Copa como produto — receita estimada em 11 bilhões de dólares, audiência global de 5 bilhões. Os dois projetos se acomodam desde que a entidade aceite a curadoria de quem entra. O custo será pago pelas torcidas que sempre sustentaram o torneio sem nunca controlá-lo: africanas, latino-americanas, das periferias dos próprios EUA.

O torneio: Copa de 2026 começa em 11 de junho no SoFi Stadium, em Inglewood. 48 seleções, 16 cidades-sede, 104 jogos. Final marcada para 19 de julho no MetLife, em East Rutherford. Receita projetada pela FIFA: 11 bilhões de dólares.

Vistos e fronteira: Segurança Interna anunciou em maio entrevista presencial obrigatória para portadores de B-1/B-2 de 19 países africanos. Patrulha de Fronteira reforçada em 4 mil agentes em Tijuana. Jornalistas iranianos credenciados pela FIFA tiveram visto negado.

Brasil: Acordo bilateral CBF-Itamaraty de fevereiro cria canal para torcida brasileira. Convocação de Dorival tem 17 jogadores pretos ou pardos entre 26 — proporção mais alta desde 1970.

Reação: África do Sul, Argélia e Irã retiraram representação diplomática em abril. União Africana enviou nota à FIFA em 12 de maio pedindo revisão de sede para 2030.

ANÁLISE — Investigação em profundidade buscando causas estruturais e consequências de longo prazo.