Quando Paulo Roberto Nunes senta para escrever sobre macro na semana 22 de junho de 2026, o que está em jogo não é o pregão de um dia nem o comunicado de uma reunião — é a arquitetura de quem ganha e quem perde no Brasil de Lula 3, ano 4. O título desta edição, "Inflação em maio — o IPCA que virou a agenda", anuncia o corte: O que o IBGE divulgou. Categorias que pressionam, categorias que aliviam. O que o BC fará na próxima reunião. A reportagem aterrissa o leitor no chão da economia brasileira no momento em que a política monetária, o ajuste fiscal e o choque externo convergem sobre as mesmas famílias que já carregam o peso histórico da desigualdade racial.

A guerra tarifária de Trump, em sua fase aguda, havia derrubado o crescimento global em 0,8 ponto percentual segundo o FMI, com impacto direto sobre exportações brasileiras. O arcabouço fiscal — 2,5% real de crescimento do gasto — estava sob pressão: déficit primário de 0,4% do PIB em 2025, acima da meta de zero. Os dois vetores — câmara do Banco Central e Esplanada dos Ministérios — disputam o microfone, mas o resultado prático desce pelo mesmo cano: preços na gôndola, juros no cartão, fila no Cadastro Único. Para o homem negro brasileiro, que é maioria no emprego informal e minoria no sistema financeiro, cada ponto percentual de Selic vira novembro de aluguel atrasado, janeiro sem escola particular, abril sem o crédito que sustentaria o pequeno negócio.

O recorte de macro que Paulo Roberto Nunes propõe exige um ângulo que a imprensa econômica tradicional raramente oferece: o da distribuição. O dólar fechou 2025 em R$ 5,80, depreciação nominal de 6% ante o real, com o Banco Central tendo feito leilões de até US$ 4 bilhões para conter volatilidade. Não se trata de listar vencedores e perdedores como se fosse placar — trata-se de reconhecer que a política econômica brasileira, desde o Plano Real, foi desenhada com o negro como variável de ajuste. A estabilização dos anos 1990 se fez cortando investimento em periferia. A austeridade de 2015–2016 amputou Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida. O novo arcabouço de 2023 herda o mesmo dilema com roupa nova.

Por cima desse tabuleiro doméstico, passa a segunda administração Trump. A bolsa encerrou 2025 com alta de 6%, modesta diante do custo de capital, e o Ibovespa começou 2026 oscilando em torno dos 138 mil pontos. A guerra comercial que Washington abriu no primeiro trimestre redesenhou as cadeias de valor e empurrou capital para o dólar, drenando emergentes. O Brasil, que exportou US$ 340 bilhões em 2024, viu setores estratégicos — aço, suco de laranja, carne bovina, aviação — virarem moeda de troca em uma mesa onde nem estava sentado. O custo dessa hostilidade externa não é abstrato: ele chega na planilha do Copom, que precisa manter juro alto para segurar câmbio, e na mesa do Planalto, que precisa gastar mais para compensar o desaquecimento.

Lula entra em 2026 no quarto ano do terceiro mandato, já com a eleição de outubro no horizonte. O governo oscila entre o desejo de gastar — herança petista, aposta eleitoral — e o compromisso com o arcabouço que Haddad costurou com o Congresso e vendeu ao mercado. Dessa tensão nasce a polifonia confusa que o eleitor ouve: o ministro pedindo paciência, o presidente prometendo obra, o Banco Central elevando juros, o Congresso ampliando emendas. O caderno de economia deste domingo — cobertura, análise ou ensaio, dependendo do dia — precisa traduzir esse ruído para quem está no ponto de ônibus às seis da manhã.

A posição editorial deste veículo é explícita: a masculinidade negra brasileira não é um tema adjacente à economia, é o centro dela. Dos 12 milhões de homens negros em idade ativa, 58% estão na informalidade. A taxa de bancarização entre homens negros adultos é de 71%, contra 84% entre homens brancos. O patrimônio médio declarado ao IRPF pelo homem negro é de R$ 42 mil, ante R$ 187 mil do homem branco. Quando Paulo Roberto Nunes escreve sobre macro, escreve sobre essas assimetrias — não como anexo, mas como fio condutor. É por isso que este caderno existe: para colocar o Brasil diante de um espelho que ele prefere não olhar.

Nesta edição de semana 22, o que o leitor encontrará não é manchete de portal nem tabela de banco de investimento. Encontrará apuração situada, cruzamento de fontes oficiais com depoimentos de quem vive o número, e a honestidade de nomear o que está acontecendo. A diferença entre esta página e o noticiário de mesa é que aqui o repórter foi ao CEP, leu o documento, ouviu a mulher na fila. Esse é o contrato que sustenta o caderno de economia em uma publicação que se recusa a tratar o homem negro brasileiro como paisagem.

ANÁLISE — Investigação em profundidade, buscando causas estruturais e consequências de longo prazo.