Cinco capitais, uma faixa, uma fila, quem assina e quem espera
Salvador, Recife, São Luís, Belém, São Paulo. Quatro semanas em quatro Caixas Econômicas e dois centros de atendimento da prefeitura. Reportagem em campo cobrindo a faixa 1 do Minha Casa Minha Vida 2026, recém-relançada pelo decreto de fevereiro do governo Lula com aporte adicional de R$ 18 bilhões pra contratar 280 mil unidades em 2026, meta cravada pra eleição de outubro. Faixa 1 do MCMV é a faixa de quem ganha até R$ 2.640 mensais. Subsídio de até 95% do imóvel. Parcela mensal a partir de R$ 80. É o melhor produto de habitação social que o Brasil já desenhou. É também o produto mais ferozmente disputado pela classe trabalhadora preta brasileira, e o que mostra com mais clareza onde o Estado entrega e onde tropeça.
Em Salvador, atendimento aberto na Caixa da Avenida Sete em 10 de abril. Fila começou às 4h. Quando abriu portão às 9h, tinha 312 pessoas. Adailton Souza, 47, soldador autônomo, chegou às 5h20. Mora em São Caetano, paga R$ 720 de aluguel num quarto-e-sala que tem rachadura na parede do banheiro. Esposa Cleide, 43, é diarista. Renda familiar declarada R$ 2.180. Adailton tem CadÚnico em dia desde 2023, renovou biometria em janeiro. Conseguiu protocolo número 187, vai ser chamado pra entrevista em julho. Pra saber se vai assinar contrato ou se vai entrar em lista de espera. Vagas em Salvador pro ciclo 2026: 4.200 unidades. Inscritos elegíveis no primeiro semestre: estimativa de 19 mil. Vai sobrar gente que entrou na fila desde 2018.
Em Recife, atendimento na Caixa da Boa Vista em 12 de abril. Fila menor, começou a se formar às 5h. Eliane Santos, 38, costureira em ateliê em Casa Amarela, chegou às 7h30. Renda R$ 1.890. Tem dois filhos, separada há quatro anos. Casa atual é alugada por R$ 580, fica em rua sem asfalto em Alto Santa Terezinha. Telhado vaza em fevereiro toda. Eliane está no MCMV desde 2021, entrou na primeira lista do governo Bolsonaro, perdeu pra fila quando programa virou Casa Verde Amarela em 2022, voltou pra fila quando MCMV foi retomado em 2023, perdeu de novo no corte orçamentário de 2024, voltou em 2025. Protocolo número 41 da chamada nova. Tem chance real. Vai saber em julho. Esperança que vinha embalada em formulário de quatro páginas com letra miúda. Eliane lê tudo. Já leu três vezes.
Em São Luís, atendimento na Caixa do João Paulo em 14 de abril. Fila com 480 pessoas. Maior fila relativa entre as cinco capitais, porque São Luís tem demanda represada de mais de uma década e o programa nunca chegou no volume necessário. Conselho da Cidade do Maranhão estima 65 mil famílias elegíveis na faixa 1. Programa promete 3.600 unidades em 2026, vai contemplar 5,5% da demanda. Wanderley Pereira, 52, pedreiro, está na fila há 11 anos. Já mudou de endereço três vezes, Liberdade, depois Cohatrac, agora João Paulo. Tem dois filhos adultos, mora com a esposa Dona Cida em casa cedida pela cunhada. Tem dor crônica nas costas. Renda atual R$ 1.640. Disse, com voz baixa: "Eu já não acredito que vou assinar. Tô aqui porque a Cida pediu." A esposa, do lado, fingiu que não ouviu.
Em Belém, atendimento na Caixa da Avenida Almirante Barroso em 17 de abril. Demanda inflada pela proximidade da COP-30, que aconteceu em novembro de 2025 e que prometeu 12 mil unidades habitacionais como legado social. Das 12 mil prometidas, foram entregues 2.100 até abril deste ano. As outras 9.900 estão em obra ou em licitação atrasada. Programa MCMV 2026 prometeu mais 4 mil. Famílias elegíveis estimadas pela Sehab: 38 mil. Fila com 290 pessoas. Roberto Lima, 41, vendedor ambulante no Ver-o-Peso, chegou às 6h. Tem MEI desde 2023, renda declarada de R$ 1.420. Já assinou contrato MCMV em 2017, foi sorteado num conjunto em Icoaraci, recebeu chave, morou três anos. Depois entrou em inadimplência de seis parcelas durante a pandemia, perdeu o imóvel em execução em 2021. Voltou pra aluguel. Está tentando de novo, desta vez com renda mais estável, planejamento orçamentário feito com a assistente social do CRAS, e papel da execução de 2021 negociado em acordo com a Caixa. Disse: "Já perdi uma vez. Não posso perder de novo." Pegou protocolo 87.
Em São Paulo, atendimento descentralizado em 22 postos do CDHU e 14 da Caixa, todos abrindo simultaneamente em 19 de abril. Sistema diferente das outras quatro capitais, São Paulo tem produção centralizada via CDHU desde 2023, e funciona em outro ritmo. Fila do posto da Casa Verde começou às 4h da manhã. Júnior Carvalho, 36, motorista de aplicativo, chegou às 4h20. Renda variável, declarou R$ 2.430 média dos últimos 12 meses. Mulher Vanessa, 34, é cabeleireira em Brasilândia. Dois filhos, um de 9 e outro de 6. Casa atual: kitnet em Vila Brasilândia, R$ 950 de aluguel, três cômodos pra quatro pessoas. Júnior tinha vaga pré-aprovada em conjunto na Cidade Ademar, saiu hoje da reunião com confirmação. Vai assinar contrato em maio, prestação inicial de R$ 168/mês. Conjunto pronto em junho de 2027. Júnior chorou no estacionamento da Caixa. Vanessa não viu, estava no trabalho, ele ligou na hora. Ela chorou no salão depois.
O dado que conecta as cinco capitais. Programa MCMV faixa 1 é o único produto de Estado brasileiro que entrega habitação digna em escala pra família que ganha 1 a 2 salários mínimos. Em ano eleitoral, vira bandeira. Em ano não-eleitoral, vira corte orçamentário. Histórico cravado: 2009 a 2014, expansão sob Dilma 1. 2015 a 2022, corte progressivo sob Temer e Bolsonaro. 2023 retomado por Lula. 2024 corte orçamentário no arcabouço fiscal. 2025 retomado de novo. 2026 expandido em R$ 18 bilhões, porque eleição. Pra quem está na fila, esse vai-e-vem orçamentário não é técnico, é ano de esperança e ano de luto. Eliane Santos em Recife resumiu sem querer ser sintética: "Eu já entrei nessa fila no governo de três presidentes. Eu vou continuar entrando até assinar ou morrer."
Quem assina e quem espera, a aritmética cravada. Total de 280 mil unidades prometidas pra 2026. Demanda total elegível na faixa 1 segundo o Ministério das Cidades: 4,8 milhões de famílias. Probabilidade de assinatura em 2026 pra família elegível em fila: 5,8%. Probabilidade de assinatura em algum ponto até 2030 pra família elegível: 27%. Probabilidade de nunca assinar: 73%. A reportagem encontrou 22 famílias nas cinco capitais. Cinco vão assinar em 2026, Júnior em SP, Eliane em Recife com alta probabilidade, dois em Salvador com média probabilidade, e um em Belém. Dezessete vão continuar na fila. Wanderley em São Luís disse, antes de sair com Dona Cida pelo portão: "A gente volta ano que vem." A esposa segurou o braço dele. Andaram juntos até o ponto de ônibus. O programa funciona. O programa não dá conta. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. E no recibo do aluguel do mês de maio, a faixa 1 do MCMV não aparece, aparece R$ 720 pra pagar até dia dez.