Caderno: Brasil
Tipo: ensaio
Semana: 22
Data: domingo, 31 de maio de 2026

Junho de 2013 — treze anos depois, o país mudou?

Por: Marcus Andrade
Os R$ 0,20 que explodiram o país. O que ficou dos protestos. Lula três, Bolsonaro prisão, o que entre.

Análise

Em 17 de junho de 2013, a Avenida Paulista parou com mais de cem mil pessoas. O estopim tinha sido um reajuste de vinte centavos na tarifa de ônibus em São Paulo — R$ 3,00 para R$ 3,20. Treze anos depois, convém parar diante desse número ridículo e perguntar: para quem esses vinte centavos pesavam de verdade? Para o universitário que foi para a rua porque achou bonito, ou para Diego, 28 anos, operário de Guarulhos, que pegava dois ônibus por dia para chegar à fábrica no ABC e voltava depois das dez da noite?

A narrativa consagrada de Junho de 2013 apagou sistematicamente a cor daquelas ruas. Quando o movimento cresceu, quando as pautas se multiplicaram e o semáforo ideológico virou laranja e vermelho ao mesmo tempo, os corpos negros que usavam transporte público como necessidade — não como causa — foram invisibilizados pela câmera que preferia o estudante de polo com cartaz de Comic Sans. O resultado é que o maior ciclo de protestos da história recente do Brasil foi sequestrado por uma memória branca e urbano-universitária que não consegue explicar por que 2016, 2018 e 2022 aconteceram.

O que ficou? Ficou a revogação dos R$ 0,20 — mas a tarifa de São Paulo chegou a R$ 5,00 em 2026, um aumento de 67% acima da inflação desde então. Ficou a CPI dos ônibus no Rio, que nada mudou no cartel das garagens. Ficaram as câmeras nos uniformes de PMs, aprovadas em São Paulo em 2013 e sabotadas até 2019. Ficou, sobretudo, a ilusão de que rua é suficiente. Não é.

Lula, no terceiro mandato que começou em janeiro de 2023 e se consolida agora em 2026, não é produto direto de Junho — mas é produto da destruição que Junho inadvertidamente acelerou. O PT caiu em 2016 pela janela do impeachment; a extrema direita ocupou o vácuo; Bolsonaro ganhou em 2018 com pauta anticorrupção que Junho havia plantado sem saber onde germinaria. A prisão de Bolsonaro, condenado em setembro de 2025 pelo STF no processo do golpe de novembro de 2022, fecha um ciclo que começou naquela tarde de junho na Paulista — mas fecha mal, sem catarse, com o Brasil exausto demais para celebrar.

Para homens negros, o ciclo Junho-Bolsonaro-Lula III tem uma lógica própria: fomos os mais mortos pelas PMs que os protestos de 2013 queriam reformar; fomos os mais atingidos pelos cortes de Temer e Bolsonaro que aquelas ruas não previram; somos os que mais dependem das políticas de redistribuição que Lula III tenta reativar contra o fogo cruzado do Congresso mais conservador desde a redemocratização. Junho prometeu um Brasil mais justo sem falar em raça. Treze anos depois, a conta chegou.

Seria cômodo encerrar com esperança. Mas a memória honesta exige outro passo: reconhecer que os movimentos de rua que não colocam raça e classe no centro de sua gramática política invariavelmente são capturados por quem já tem poder. Junho de 2013 foi capturado. A pergunta não é se o país mudou — mudou, e para pior antes de tentar melhorar. A pergunta é se, na próxima vez que a tarifa subir, a rua vai saber o nome de quem paga o preço.

Contexto

A tarifa: O reajuste de R$ 0,20 em junho de 2013 foi suspenso em 19 de junho após as maiores manifestações desde a redemocratização. Em 2026, a tarifa de ônibus em São Paulo é R$ 5,00; no Rio, R$ 4,30. O valor corrigido pelo IPCA desde 2013 seria R$ 4,85 — as cidades estão, na prática, no limite do que os protestos tentaram conter.

O ciclo político: Dilma Rousseff sofreu impeachment em 2016; Michel Temer governou até 2018; Jair Bolsonaro venceu as eleições em outubro de 2018 e perdeu para Lula em outubro de 2022. Em novembro de 2022, Bolsonaro não reconheceu o resultado; em setembro de 2025, o STF o condenou a 17 anos por tentativa de golpe de Estado. Lula governa o terceiro mandato desde janeiro de 2023.

Raça e transporte: Segundo o IBGE (PNAD 2024), 74% dos usuários de ônibus urbano no Brasil se autodeclaram pretos ou pardos. O tempo médio de deslocamento de trabalhadores negros nas regiões metropolitanas é 38 minutos superior ao de trabalhadores brancos. A tarifa é um imposto regressivo com endereço racial.