Caderno: Brasil
Tipo: reportagem
Semana: 18
Data: domingo, 3 de maio de 2026

1º de maio 2026 — centrais sindicais em ato em São Paulo

Por: Antônio Lima
CUT, Força, UGT juntas na Paulista. A pauta: reforma trabalhista revisitada, salário mínimo, aposentadoria.

Análise

Às 9h40 do dia 1º de maio de 2026, a Avenida Paulista tinha 87 mil pessoas segundo estimativa da Polícia Militar — a maior concentração desde 2019. CUT, Força Sindical e UGT chegaram em colunas separadas e convergiram no vão do MASP com pauta unificada em três pontos: revisão da reforma trabalhista de 2017, reajuste do salário mínimo acima da inflação para 2027, e rejeição à PEC que eleva a aposentadoria mínima para 67 anos. A unidade entre as três centrais, adversárias históricas, é o dado político mais relevante do dia.

A reforma trabalhista de 2017 nunca saiu do centro da disputa. Ela eliminou a ultratividade das convenções coletivas, autorizou o contrato intermitente e tornou o negociado superior ao legislado em 14 pontos. Nos nove anos seguintes, a informalidade cresceu 11 pontos percentuais entre homens negros de 18 a 35 anos — dado da PNAD Contínua 2025. A reforma prometeu formalizar quem estava fora; o resultado foi o oposto para quem mais precisava de proteção. Entre os trabalhadores de aplicativo — categoria de maioria negra e masculina nas capitais — 78% seguem sem qualquer cobertura previdenciária, segundo o IPEA.

Sergio Nunes, presidente da CUT, subiu ao palco às 11h15 com proposta de emenda constitucional enviada ao Congresso em março: retorno da ultratividade, limite de 20% de contratos intermitentes por empresa com mais de 50 funcionários, e piso nacional para trabalhadores de aplicativo. Miguel Rodrigues, da Força Sindical, adicionou a demanda por desoneração da folha para micro e pequenas empresas. A diferença de ênfase revela que a unidade é tática — mas é real o suficiente para ter efeito no Congresso.

O salário mínimo é o nó mais concreto. O valor atual, R$ 1.640, segue a fórmula INPC mais variação do PIB de dois anos antes. As centrais pedem reajuste adicional de 4% para 2027, levando o mínimo a R$ 1.803. O governo sinalizou positivamente em reunião com o ministro Luiz Marinho na última semana de abril, mas a equipe econômica não confirmou. O impacto fiscal estimado pelo DIEESE é de R$ 24 bilhões.

A aposentadoria é o capítulo mais difícil. A PEC 18/2026 propõe elevar a idade mínima de 65 para 67 anos e o tempo de contribuição de 20 para 25 anos. O dado estrutural é brutal: a expectativa de vida de homens negros no Brasil é de 68,4 anos (IBGE 2024) — três anos abaixo da média nacional. Aposentar com 67 significaria, para uma fatia significativa desse grupo, nunca aposentar. As centrais chamam a PEC de necropolítica previdenciária. O termo não é retórico.

O ato da Paulista encerra o quadrimestre sindical com uma clareza que os bastidores de Brasília raramente produzem: quando a pauta atinge o bolso e o corpo, as divisões históricas entre centrais cedem. A questão é se o Congresso vai ler o ato como pressão conjuntural ou como sinal de que a reforma de 2017 chegou ao limite político. A PEC 18 pauta votação para junho. O prazo é curto.

Contexto

O ato em números: 87 mil pessoas na Paulista (PM-SP); 120 mil segundo os organizadores. Atos simultâneos em BH (12 mil), Porto Alegre (9 mil), Salvador (7 mil) e Recife (6 mil), segundo as centrais.

Salário mínimo 2026: R$ 1.640 desde fevereiro (reajuste de 7,3% sobre R$ 1.528). Proposta das centrais para 2027: R$ 1.803, com adicional de 4%. Impacto fiscal estimado pelo DIEESE: R$ 24,1 bilhões.

PEC 18/2026: Proposta do dep. Altamiro Brito (PL-SP) eleva idade mínima de aposentadoria para 67 anos e tempo de contribuição para 25 anos. Expectativa de vida de homens negros: 68,4 anos (IBGE 2024), contra 71,3 anos para homens brancos.

Reforma de 2017 e raça: A informalidade entre homens negros de 18 a 35 anos passou de 44% (2017) para 55% (2025). Para homens brancos no mesmo grupo, variou de 36% para 39% (PNAD Contínua 2025).