Caderno: Brasil
Tipo: reportagem
Semana: 15
Data: domingo, 12 de abril de 2026

Bala perdida no Rio — a contagem de abril

Por: Antônio Lima
Trinta e duas crianças atingidas no primeiro trimestre. Quatro morreram. Quem comanda as operações que produzem esse número.

Análise

Trinta e duas crianças foram atingidas por bala perdida no Rio de Janeiro no primeiro trimestre de 2026. Quatro morreram. Os dados são do Fogo Cruzado, plataforma de monitoramento de disparos que opera na região metropolitana desde 2016. Nenhuma das quatro mortes aconteceu durante um confronto em que a criança fosse parte ativa. Todas estavam em casa, na escola, na calçada. O eufemismo "bala perdida" nomeia uma bala que não estava perdida: foi disparada por alguém, em alguma direção, a partir de uma decisão tomada por uma cadeia de comando.

Em março, operação da Polícia Civil no Complexo do Alemão deixou oito mortos e uma criança de seis anos baleada na coxa enquanto assistia televisão. Em fevereiro, menina de nove anos foi atingida no pescoço em Realengo durante operação conjunta da PMERJ e da Polícia Federal. Sobreviveu, mas faz fisioterapia motora três vezes por semana. A PMERJ foi questionada em audiência na Alerj em março. Nenhum caso tem responsabilização criminal consolidada.

No lado do Estado, quem comanda é o governador Cláudio Castro. A Secretaria de Segurança passou por três titulares desde janeiro de 2025. A política operacional da PMERJ privilegia incursões em massa — helicóptero, caveirão, tropa em terreno — em detrimento de inteligência prévia. O Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura auditou esse modelo em 2024 e emitiu nota técnica crítica que o governo estadual não respondeu.

No lado das facções, as operações policiais em larga escala funcionam como pressão sobre territórios em disputa: quando a PMERJ entra no Complexo da Maré ou no Jacarezinho com força máxima, o objetivo declarado é combate ao tráfico. O efeito documentado é a reafirmação dos limites territoriais após o recuo — com violência aumentada nas primeiras semanas seguintes à operação. O Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF mapeou esse padrão em quatro favelas entre 2022 e 2025. Mais operação, mais morte, mais disputa. O ciclo não se interrompe porque não há interesse político em interrompê-lo desta forma.

As quatro crianças mortas no primeiro trimestre de 2026 têm nomes registrados nos boletins de ocorrência. Nenhum deles estava nos noticiários nacionais por mais de 48 horas. O perfil é constante: meninos e meninas negros, moradores de comunidades na Zona Norte e na Baixada Fluminense, faixa etária entre dois e quatorze anos. A raça não aparece nos comunicados oficiais da PMERJ — aparece nas estatísticas do Fogo Cruzado e nos relatórios do Mecanismo de Prevenção à Tortura. Essa omissão não é acidental: nomear a raça das vítimas implicaria nomear a raça como variável das operações.

Abril começou com operação no Complexo do Lins — doze mortos em dois dias. O número do primeiro trimestre pode não ser o pior do ano. A Defensoria Pública abriu, em março, procedimento para monitorar operações com mais de três mortos. É resposta institucional mínima: quem decide enviar uma operação para dentro de uma favela decide também quem está no caminho da bala.

Contexto

Fogo Cruzado: A plataforma monitora disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio desde 2016, com dados em tempo real e acervo histórico. No primeiro trimestre de 2026, registrou 32 crianças baleadas e 4 mortes na faixa etária de 0 a 17 anos em ocorrências com vínculo a operações policiais ou confrontos entre facções.

PMERJ e responsabilização: A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro realizou audiência em março de 2026 para apurar as circunstâncias das operações no Complexo do Alemão e em Realengo. Nenhum inquérito criminal havia sido aberto até a data de publicação desta análise.

GENI/UFF: O Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (UFF) publicou em 2025 mapeamento sobre quatro favelas cariocas entre 2022 e 2025 — identifica aumento de violência nas semanas seguintes a operações de grande escala.

Defensoria Pública: Em março de 2026, abriu procedimento para monitorar operações com três ou mais mortos e solicitou acesso aos planos operacionais da PMERJ.