Análise
Em três meses, o Brasil vai comemorar o 21 de abril como faz há décadas: desfiles cívicos, busto de bronze, o alferes Joaquim José da Silva Xavier elevado a mártir da liberdade. O problema não é a data — é o mártir que a data constrói. Tiradentes foi enforcado em 1792 como traidor da Coroa, mestiço de origem obscura, desclassificado que ousou conspirar. A história oficial o devolveu à nação com pele indefinida e aura cristológica. Historiadores negros estão desconstruindo essa operação em tempo real, e os próximos noventa dias vão mostrar quanto dessa revisão alcança as comemorações de Estado.
Eduardo de Oliveira e Oliveira já denunciava, nos anos 1970, o padrão pelo qual o Brasil fabrica heróis nacionais a partir de figuras de fronteira racial — branqueando-as no processo. O que é específico em Tiradentes é a eficiência da canonização: o alferes virou santo laico e, nessa ascensão, perdeu a materialidade social que o tornava subversivo. Pesquisadoras como Ana Flávia Magalhães Pinto documentam como a escola pública reproduz essa versão asséptica geração após geração, sem que o currículo oficial mencione quem mais circulava nas redes de informação da Capitania de Minas Gerais em 1789.
A Inconfidência era, antes de tudo, um projeto de elite escravocrata. Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e os demais conspiradores eram senhores de escravizados, devedores da Coroa, interessados em independência fiscal — não em abolição. Nenhum documento da conspiração propõe emancipação. Tiradentes ocupava posição subalterna: dentista sem clientela fixa, militar de patente baixa, réu confesso quando a conspiração implodiu. Sua execução foi um acerto de contas social — os ricos compraram perdão; o pobre foi enforcado e esquartejado na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro.
A heroificação começou com a República, em 1889. O novo regime precisava de um mártir civil que não fosse monárquico, não fosse negro, não fosse escravo — alguém que servisse a todos os projetos de nação simultaneamente. O alferes foi pintado com cabelo longo, olhar sofrido, postura de Cristo: a iconografia da Paixão transferida para a política laica. José Murilo de Carvalho descreveu esse processo com precisão em A Formação das Almas (1990). A República escolheu seus símbolos antes de ter seu povo.
O que a historiografia negra acrescenta em 2026 é a pergunta sobre quem não entrou nessa iconografia. Há documentação de africanos e crioulos que circulavam nas redes de informação da região, conspiradores anônimos que denunciaram, sobreviveram, desapareceram. Esses nomes não viraram feriado. A heroificação de Tiradentes não é apenas o branqueamento de um indivíduo: é o apagamento sistemático dos sujeitos negros da história política do Brasil colonial. É essa ausência que os departamentos de história da UFMG e da UNILAB estão nomeando agora — e que o governo federal continua não colocando na mesa central das comemorações.
Contexto
Historiografia negra: Ana Flávia Magalhães Pinto (UnB) e Luiz Fernandes de Oliveira (UFRRJ) publicaram trabalhos entre 2023 e 2025 sobre silêncios curriculares em torno da escravidão no período colonial tardio. A ausência de sujeitos escravizados na narrativa da Inconfidência é eixo central da crítica.
Iconografia republicana: José Murilo de Carvalho documentou em A Formação das Almas (Companhia das Letras, 1990) como a República de 1889 construiu Tiradentes como Cristo cívico — cabelo longo, barba, execução sacrificial — para criar um mártir sem concorrência popular.
21 de abril em 2026: O governo federal manteve as comemorações no mesmo formato institucional. A SEPPIR e o MinC organizaram evento paralelo em Ouro Preto com historiadores do campo afro-brasileiro, sem integração à programação oficial.