Caderno: Brasil
Tipo: crônica
Semana: 12
Data: domingo, 22 de março de 2026

Sexta-feira Santa no Recôncavo — tradição que o turismo ainda não entendeu

Por: João Batista Baiano
Cachoeira, São Félix, Maragogipe. Três dias na procissão negra mais antiga do Brasil.

Análise

Na quinta-feira antes da Sexta-feira Santa, Cachoeira já cheira diferente. Não é o incenso das igrejas — isso vem depois. É o azeite de dendê aquecendo nas panelas de barro da Rua Treze de Maio, onde Dona Conceição, 71, prepara o vatapá para o almoço coletivo no terreiro da família, tradição que ela aprendeu com a mãe e que as filhas estão aprendendo com ela. Nenhuma agência de turismo sabe que existe. É assim que funciona.

A Procissão do Encontro, que percorre o centro histórico de Cachoeira desde o século XVIII, aparece nos roteiros como a "mais antiga do Recôncavo". A descrição é correta e incompleta, porque omite o que a torna singular: é uma procissão mantida por famílias negras durante o período escravocrata, quando a Igreja permitia a participação de cativos nas irmandades como estratégia de controle e os cativos usaram esse espaço para preservar laços de comunidade e, em vários casos documentados pelo historiador João José Reis, redes de resistência. O turismo herdou a procissão sem herdar essa leitura.

Em São Félix, na margem oposta do Paraguaçu, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos organiza sua própria procissão — menor, menos fotografada, mais densa. Benedito, 58, zelador da irmandade há vinte e dois anos, acende as velas na sacristia às cinco da manhã. Não faz por turismo nem por obrigação. Faz porque o pai fez e o avô fez, e porque entende — sem usar esse vocabulário — que há uma continuidade que independe de patrocínio.

Maragogipe fecha o triângulo. Grupos de homens negros carregam os andores em silêncio absoluto por ruas de paralelepípedo. O silêncio é parte do rito — não ausência de som, mas presença de outro tempo. Renildo, 41, carregador de andor há quinze anos, entrou na função porque um tio pediu antes de morrer. Continua porque sente que o peso no ombro tem significado que não consegue colocar em palavras, mas reconhece quando está carregando.

O turismo do Recôncavo descobriu a Semana Santa de Cachoeira nos últimos cinco anos. Pousadas lotam desde a quarta-feira. Cafés com estética de "patrimônio histórico" abrem em casarões tombados. O problema não é o registro — é o que fica de fora. O turista vê a procissão; não vê Benedito às cinco da manhã. Vê o casarão; não vê a cozinha de Dona Conceição. Vê o silêncio de Maragogipe como cenário; não vê Renildo como sujeito.

A devoção negra do Recôncavo na Semana Santa não é folclore para consumo externo. É prática viva mantida por quem a herdou como responsabilidade. Enquanto o turismo busca a foto da procissão, as famílias que a sustentam há duzentos anos estão envelhecendo sem política de transmissão, sem apoio institucional, sem reconhecimento de que são elas — e não a fachada dos casarões — o que de fato há para ver.

Contexto

Cachoeira e São Félix: Cidades do Recôncavo Baiano separadas pelo Rio Paraguaçu. Cachoeira tem 34 mil habitantes; São Félix, 14 mil. Ambas tombadas pelo IPHAN, integram o conjunto histórico mais preservado do século XVIII no Brasil.

Irmandades negras: Criadas no Brasil colonial para organização religiosa de escravizados e libertos. No Recôncavo, pesquisas de João José Reis documentam sua função como redes de apoio mútuo, resgate de alforrias e articulação de resistência — incluindo a Revolta dos Malês (Salvador, 1835).

Turismo: O fluxo turístico na Semana Santa do Recôncavo cresceu 34% entre 2023 e 2025, segundo a Bahiatursa. A maior parte concentra-se em Cachoeira, com 22 pousadas cadastradas, contra 4 em São Félix e 2 em Maragogipe.

Transmissão cultural: Não existe programa público federal ou estadual de apoio à transmissão das práticas devocionais das irmandades negras do Recôncavo. O IPHAN tomba estruturas físicas; as práticas imateriais dependem exclusivamente das famílias que as sustentam.