Caderno: Brasil
Tipo: ensaio
Semana: 9
Data: domingo, 1 de março de 2026

Oito anos sem Marielle — o arquivo que não se fecha

Por: Esperança Gomes
14 de março de 2018. O que a Justiça fez, o que Anielle construiu, o que permanece.

Análise

Oito anos depois de 14 de março de 2018, o caso Marielle Franco não está encerrado. O mandante segue sem julgamento definitivo. O processo tramita no Supremo Tribunal Federal, com data de sessão plenária marcada para abril de 2026 — adiada pela terceira vez em dois anos, por pedido de vista de ministro cujo nome o tribunal não divulgou na primeira semana. O assassinato de uma vereadora negra, lésbica, favelada, eleita pelo PSOL com 46 mil votos no Rio de Janeiro, tornou-se um caso que o Brasil não consegue nem arquivar nem resolver.

O que a Justiça fez, de fato: Ronnie Lessa, executor confesso, foi condenado a 78 anos e 9 meses em agosto de 2024. Élcio de Queiroz, motorista, recebeu 59 anos e 8 meses na mesma sessão. Dois corpos que puxaram o gatilho e dirigiram o carro — mas mandantes identificados pelo relatório da Polícia Federal em 2023 aguardam julgamento cujo prazo o STF ainda não confirmou publicamente. Chama Domingos Brazão, ex-chefe da Casa Civil do Rio, como réu principal. A família de Marielle esperou seis anos para ouvir esse nome num documento oficial.

O que Anielle Franco construiu no intervalo é outra história — literal. A irmã de Marielle tornou-se ministra, fundou política pública, nomeou servidores negros, viajou a Genebra para defender o Brasil perante o Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial da ONU. Transformou o luto em mandato. Isso é extraordinário e ao mesmo tempo perturbador: que o legado de uma vítima precise se converter em cargo executivo para não se apagar é um diagnóstico sobre como o Estado brasileiro trata a memória do racismo — só retém o que tem alguém de peso para sustentar.

O arquivo que não se fecha é também o arquivo físico. O acervo de Marielle — anotações de mandato, correspondências, cadernos de campanha — está sob guarda do Instituto Marielle Franco, sediado no Catumbi, Rio de Janeiro. Em 2025, o instituto protocolou pedido ao Arquivo Nacional para incorporação parcial ao acervo público federal. O pedido não foi respondido. Enquanto isso, o acervo digital do mandato da vereadora está disponível online, mas sem indexação oficial no sistema de transparência da Câmara Municipal do Rio — porque a Câmara não mantém acervos de vereadores assassinados como categoria específica de preservação.

Para o movimento negro, 14 de março é uma data de balanço político, não de luto encenado. Marielle não era símbolo antes de ser assassinada — era parlamentar em exercício, com pautas sobre abuso policial na Maré, sobre o cotidiano de mulheres negras em territórios de milícia. Sua morte transformou pautas concretas em emblema, e emblema é mais fácil de absorver sem mudar nada. Oito anos depois, a pergunta que o movimento repete é esta: o que foi feito com as pautas? Não com o nome — com o conteúdo do mandato.

Contexto

O julgamento: Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz foram condenados em agosto de 2024 pelo Tribunal do Júri do Rio. O julgamento dos mandantes — Domingos Brazão, Chiquinho Brazão e Rivaldo Barbosa — tramita no STF, com sessão adiada para abril de 2026.

Instituto Marielle Franco: Fundado em 2019 no Catumbi (Rio de Janeiro), mantém o acervo do mandato e programas de formação política para mulheres negras periféricas. Em 2025, atendeu 1.400 participantes em 11 estados.

Anielle Franco e o ministério: Nomeada ministra da Igualdade Racial em janeiro de 2023, aprovou até fevereiro de 2026 trinta e quatro políticas com recorte racial, incluindo o Planapir — orçamento de R$ 1,8 bilhão para 2024–2027.

Referência: Lélia Gonzalez, em A Categoria Político-Cultural de Amefricanidade (1988), argumenta que a memória política negra é sabotada pela ausência de institucionalização — o que o Estado não guarda, some.