Caderno: Brasil
Tipo: análise
Semana: 7
Data: domingo, 15 de fevereiro de 2026

Pós-carnaval — R$ 12 bilhões movidos, quem fica com quanto

Por: Antônio Lima
A cadeia produtiva do maior evento do país. Quem produz, quem lucra, quem sobra sem contrato.

Análise

O carnaval de 2026 moveu R$ 12,3 bilhões em cinco dias. O número saiu do Ministério do Turismo na quarta-feira de cinzas, acompanhado de nota de satisfação. O que a nota não diz: desse total, menos de 18% ficou com trabalhadores formais da cadeia produtiva direta — músicos, carregadores de alegorias, costureiras de ateliê, montadores de estrutura. O restante percorreu o circuito já conhecido: hotelaria de rede, cervejaria, plataformas de ingresso e patrocinadores master com sede em São Paulo ou no exterior.

A distribuição não é acidente. É arquitetura. O carnaval brasileiro foi industrializado nas últimas duas décadas sem que os trabalhadores que o constroem tenham conquistado representação sindical efetiva, contrato com salário base garantido ou participação nos direitos de imagem e transmissão. No Rio, 68 mil pessoas trabalham diretamente para as escolas de samba — bordadeiras no Engenho de Dentro, ferreiros no galpão de Madureira, dançarinos de ala que treinam desde junho. Em 2026, menos de 12 mil tinham carteira assinada durante o período de produção.

O perfil racial desses trabalhadores é homogêneo. Pesquisa do Iuperj publicada em janeiro mapeou que 81% dos trabalhadores de base das escolas cariocas se autodeclaram pretos ou pardos. Na contramão, entre diretores de carnaval e presidentes de escolas com contrato de patrocínio acima de R$ 1 milhão, esse percentual cai para 54%. O fosso entre quem faz e quem decide — e quem recebe — tem cor.

Em Salvador, o modelo do circuito Barra-Ondina acirrou essa geometria. Os camarotes faturaram R$ 1,1 bilhão apenas em ingressos e open bar. O cachê médio dos artistas do axé consolidado ficou em R$ 2,4 milhões por noite. Os vendedores ambulantes que abasteceram 700 mil foliões por dia — majoritariamente homens negros de bairros como Periperi, Cajazeiras e São Gonçalo do Retiro — operaram sem alvará, sem proteção previdenciária e com margem média de R$ 180 por dia de festa. Quando a festa acaba, eles ficam sem o colchão de renda que os turistas deixaram na cidade.

O prefeito Bruno Reis anunciou, no pós-carnaval, que Salvador arrecadou R$ 860 milhões em ISS e tributos diretos durante o período. A prefeitura prometeu investir 30% disso em infraestrutura de bairros periféricos. O compromisso existe desde 2022. Em 2025, o percentual executado foi 11%. A promessa virou rotina sem exigência de prestação de contas pública mensal — o que seria, tecnicamente, possível com o sistema de transparência já existente.

A pergunta não é se o carnaval é importante para a economia brasileira. É quem define as regras de quem participa do que foi construído. Enquanto a cadeia produtiva tratar músico, costureira e ambulante como insumo sazonal — descartável em março, convocável em setembro para o próximo ciclo —, o R$ 12 bilhões continuará sendo um número de press release, não de distribuição.

Contexto

Força de trabalho informal: Segundo o IBGE, 62% dos trabalhadores do setor de eventos e entretenimento no Brasil operam sem vínculo formal. No carnaval, a sazonalidade concentra essa informalidade: contratos de 15 a 45 dias, sem seguro-desemprego ao término.

Transmissão e direitos digitais: Em 2026, plataformas de streaming pagaram R$ 38 milhões em direitos às escolas de samba cariocas. Intérpretes e compositores receberam, via ECAD, R$ 4,1 milhões — menos de 11% do negociado. O tema de royalties do carnaval ainda não entrou na pauta do Congresso.

Salvador e camarotes: Hapvida e Ambev concentraram 44% da receita de camarote no circuito Barra-Ondina em 2026. A prefeitura não exige cota de contratação local como condição para licença de camarote acima de R$ 5 milhões.

Referência: Márcio Pochmann, em relatório para o Ipea de 2024, estimou que cada R$ 1 investido em formalização de trabalhadores de eventos gera R$ 2,70 em renda circulante nos bairros de origem — efeito multiplicador superior ao do turismo hoteleiro.