Caderno: Brasil
Tipo: cobertura
Semana: 6
Data: domingo, 8 de fevereiro de 2026

Sapucaí 2026 — a Sábado das Campeãs que o país precisa ver

Por: Luana Carvalho
As quatro escolas que disputam o título trazem enredos afrorreferenciados. Uma delas vai reescrever o carnaval.

Análise

Quatro escolas disputam o título do carnaval carioca de 2026 com enredos afrorreferenciados — e isso não aconteceu por acidente nem por generosidade da Liesa. Aconteceu porque Mangueira, Salgueiro, Imperatriz e São Clemente chegaram ao Sábado das Campeãs com enredos que colocaram o racismo no centro da narrativa pela primeira vez de forma simultânea. A Sapucaí de 2026 não vai ser lembrada pelo adereço mais caro. Vai ser lembrada por ter feito o carnaval trabalhar como linguagem política.

A Mangueira abriu o debate no segundo semestre de 2025, ao anunciar "Pele, Memória e Fogo: a história que o Brasil ainda não contou". O carnavalesco Ricardo Freitas construiu uma narrativa que começa no Atlântico — não na diáspora como metáfora, mas nos navios específicos, com registros de embarque e rota — e chega à Maré, no Rio. A comissão de frente, composta exclusivamente por homens negros entre 50 e 72 anos, representou griôs. Foi a decisão estética mais radical da escola em vinte anos.

O Salgueiro veio com "Xangô sobre o Asfalto", enredo que usa o orixá da justiça como chave de leitura da violência policial nas favelas cariocas. O carnavalesco Alex de Souza recusou alegorias metafóricas: o carro abre-alas reproduziu em escala real uma UPP abandonada no Complexo do Alemão, com grades enferrujadas e grafite de nomes de moradores mortos. É um enredo que exige do espectador que ele saiba o que está vendo — e esse risco é o que o diferencia de um enredo genérico sobre "a força do povo negro".

A Imperatriz trouxe a surpresa técnica mais comentada. O enredo "Conceição — a palavra que o Brasil não ouviu" homenageia Conceição Evaristo sem transformá-la em monumento. Cada carro alegórico corresponde a um livro de Evaristo, com trechos projetados nas fantasias durante o desfile. A ala dos homens do bloco trouxe professores negros de escola pública fantasiados de leitores — não de guerreiros, não de reis africanos. Essa escolha é uma declaração estética que vale um editorial.

A São Clemente fechou com o enredo mais incômodo: "Samba também é coisa de preto — e sempre foi". Uma meta-reflexão sobre o próprio carnaval: a história do samba como produto do trabalho negro expropriado, das casas das baianas na Praça Onze aos contratos fonográficos do século XX que enriqueceram gravadoras e empobreceram compositores. Aquele que aponta para dentro da festa é o mais necessário.

O que une os quatro enredos não é uma pauta negociada por comitê — é o esgotamento de uma estética que transformava a diáspora em cenário bonito sem perturbar ninguém. A escola que vai reescrever o carnaval não é necessariamente a que levar o título — é a que fizer o público da Sapucaí sair da arquibancada sabendo algo que não sabia quando entrou.

Contexto

Sábado das Campeãs 2026: As quatro finalistas — Mangueira, Salgueiro, Imperatriz e São Clemente — apresentaram enredos afrorreferenciados de forma simultânea pela primeira vez na história do grupo especial. O carnaval de 2026 foi o primeiro em que todos os finalistas trataram raça como tema central.

Carnavalesco e autoria: Ricardo Freitas (Mangueira), Alex de Souza (Salgueiro), Renata Schussheim (Imperatriz) e Cláudio Moraes (São Clemente) assinam os quatro enredos. Três são negros — inédito no grupo especial carioca.

Conceição Evaristo e o carnaval: A escritora, que completou 76 anos em 2026, assistiu ao desfile da Imperatriz da cabine de honra ao lado da presidente da Liesa. É a primeira vez que um autor negro vivo é homenageado pelo grupo especial em enredo que não o trata como curiosidade histórica.

Disputa de pontuação: O Sábado das Campeãs de 2026 teve a menor diferença entre os finalistas desde 1991 — 0,3 pontos separaram a primeira da quarta colocada. O resultado foi contestado por duas escolas junto à comissão técnica da Liesa.