Análise
Na terceira semana de janeiro de 2026, as chuvas voltaram ao litoral norte de São Paulo com a regularidade de um compromisso não cumprido. Ilhabela, São Sebastião e Ubatuba registraram entre 280 mm e 340 mm em 72 horas — volumes acima da média histórica de janeiro, dentro do intervalo que a Defesa Civil classifica como "esperado para o período". Esperado. A palavra é o problema. O que é esperado e não vira obra é política, não clima.
Os bairros atingidos são os mesmos de janeiro de 2023, quando o mesmo litoral norte registrou 682 mortes em menos de uma semana. São Sebastião concentrou, então, as maiores perdas: Topolândia, Sahy, Morro do Macaco. Em 2026, as enchentes voltaram aos mesmos endereços com volume menor e um saldo de mortos que, até o fechamento desta reportagem, chegava a 11. O número menor não é conquista — é a diferença entre um evento extremo e um evento grave. O mapa é idêntico.
A Defesa Civil do estado de São Paulo mantém um sistema de risco geológico que classifica áreas por CEP. No litoral norte, 73% das áreas classificadas como de "risco muito alto" concentram população de renda mensal abaixo de dois salários mínimos, segundo levantamento do IPT de 2024. Nessas áreas, a cor da pele predominante segue o padrão nacional de segregação habitacional: mais de 60% dos moradores se autodeclaram pretos ou pardos. A Defesa Civil sabe onde vai chover. Sabe quem vai morrer. O mapa não vira obra porque obra custa, reassentamento é impopular e eleição fica para outubro.
Após 2023, o governo federal anunciou R$ 1,9 bilhão em obras de contenção para o litoral norte paulista. Em janeiro de 2026, o TCU identificou que 34% desse valor ainda não havia sido empenhado e que das 47 obras previstas, apenas 11 estavam concluídas. As demais estavam em licitação, paralisadas por impugnação ou com prazo estendido. Os mesmos bairros, os mesmos CEPs, aguardando as mesmas obras que foram anunciadas na semana seguinte à tragédia de três anos atrás.
Thiago, 38, pedreiro de Topolândia que perdeu a casa em 2023 e foi reassentado num conjunto habitacional a 6 km dali, acordou na madrugada de 16 de janeiro com o som da chuva e foi até a janela. Disse a um repórter que a primeira coisa que fez foi checar o celular para ver se o alerta da Defesa Civil tinha chegado. Chegou, às 2h43. Ele já estava acordado às 2h30. "O corpo aprende antes do aplicativo", disse. O aprendizado do corpo como substituto da infraestrutura pública é exatamente a indignidade que o Estado não contabiliza nas suas notas técnicas.
A geografia do abandono não é acidente de topografia. É decisão acumulada sobre onde se investe em contenção, onde se regulariza ocupação, onde se instala esgoto antes que a encosta ceda. Enquanto essas decisões seguirem sendo adiadas até depois da próxima chuva — e da próxima eleição —, os mesmos nomes vão aparecer nos boletins da Defesa Civil de 2027.
Contexto
Obras pós-2023: O governo federal comprometeu R$ 1,9 bilhão para contenção no litoral norte paulista após fevereiro de 2023. Auditoria do TCU (dezembro de 2025) identificou que apenas 23% das 47 obras estavam concluídas; 18 em licitação, 6 com contratos rescindidos.
Risco e raça: Levantamento do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) de 2024 mapeou 1.240 setores censitários em área de risco muito alto no litoral paulista. Em 73% deles, a renda domiciliar média não ultrapassa dois salários mínimos. O IBGE registra que nesses setores a proporção de moradores autodeclarados pretos ou pardos é de 61%, contra 38% nos setores de risco baixo ou inexistente da mesma região.
Sistema de alerta: O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) emitiu alerta nível 3 para o litoral norte às 22h de 15 de janeiro. A Defesa Civil estadual enviou SMS para 94% dos moradores cadastrados nas áreas de risco. O cadastro, porém, cobre estimados 58% da população efetivamente em risco — os 42% restantes são moradores em ocupações irregulares sem endereço formal no sistema.