Análise
Um ano tem cinquenta e duas semanas, e este caderno cobriu todas. Quando releio os temas de janeiro a dezembro — IA nas eleições, neuroplasticidade, cotas nos vinte anos, CAPS e homem negro, burnout executivo, saúde de Novembro Azul, SaaS nacional, dossiê de neurociência — vejo um fio que não estava no planejamento editorial mas apareceu em toda edição: a disputa sobre quem tem direito ao conhecimento. Não quem produz o conhecimento, não quem o acessa — quem tem direito a existir como sujeito nele. O homem negro brasileiro, em 2025, ainda negociou esse direito em todo campo que cobrimos.
Na educação, o dado mais importante do ano não foi a taxa de ingresso nas federais — foi a taxa de permanência. Ingressar, as cotas garantem com razoável eficácia. Permanecer depende de bolsa, de moradia estudantil, de não ser o único na sala, de ter um orientador que não subtrai energia antes de somá-la. Os dados da Capes de 2025 mostram que a evasão no doutorado entre estudantes negros cotistas cai 40% quando o orientador também é negro ou quando o grupo de pesquisa tem maioria negra. Pertencimento produz ciência. Não é abstração — é número.
Na saúde mental, o ano provou que o problema não é o homem negro não querer ajuda. É que a ajuda disponível frequentemente não foi feita para ele. O CAPS foi pensado para uma população-tipo que não inclui o homem de quarenta anos que trabalha dois empregos, que não fala de saúde mental com ninguém porque ninguém ao redor o fez, que chega ao serviço e encontra um profissional que lê seus sintomas através de uma grade clínica construída sem ele. As iniciativas que funcionaram em 2025 — grupos de escuta masculina em Salvador, consultório de rua com psicólogos negros em Fortaleza — funcionaram porque partiram da escuta, não do diagnóstico.
Na IA e tecnologia, 2025 foi o ano da bifurcação. De um lado, sistemas que reproduzem viés porque foram construídos sem questionar a quem servem. De outro, iniciativas como a Cora Saúde e o protocolo neuropsicológico da UFBA, que construíram com a população que queriam servir. A diferença não é técnica — é política. Quem decide os dados de treinamento decide quem o sistema reconhece como humano pleno.
Se eu precisasse nomear o tema do caderno Saber em 2025 em uma frase, seria esta: o conhecimento não é neutro, e fingir que é custa vidas. A neurociência que não normatiza para populações negras produz laudos que excluem. A IA que não audita viés racial produz sistemas que prejudicam. A universidade que não garante permanência produz evasão que desperdiça talento. Em todos os casos, o custo é pago por quem menos criou o problema. 2026 começa com esse débito em aberto.
Contexto
Dossiê em números: 52 edições publicadas, cinco cadernos (Mundo, Cultura, Economia, Saber, Esporte). No Saber: 17 autores-voz, 4 colaboradores fixos (Gérson Neto, Henrique Araújo, Caio Vitor, Nádia Ferreira). Temas mais recorrentes: IA (11 edições), saúde mental (9), educação/universidade (8), pesquisa científica (6).
Cotas — permanência vs. ingresso: Dados Capes 2025: evasão no doutorado entre cotistas negros é 40% menor em grupos com orientador negro ou maioria negra. Conclusão no prazo: 54% em grupos mistos, 71% com representação negra significativa.
Saúde mental e acesso: Pesquisa do Ministério da Saúde (ago./2025): apenas 12% dos homens negros entre 30 e 50 anos que relataram sintomas depressivos procuraram serviço de saúde mental no ano. Principal barreira declarada: "não me identifico com os profissionais disponíveis" (41%) e "não tenho tempo" (38%).
IA e raça no Brasil: PL 2338 aprovado em comissão no Senado. Marco legal sem sanção ao fim do ano. Sistemas de alto risco — crédito, emprego, saúde — sujeitos a auditoria de viés quando sancionado.