Análise
Quando faço balanços anuais, começo pelo que me surpreendeu. Em 2025, o que me surpreendeu foi a velocidade: a neurociência brasileira publicou em ritmo mais intenso do que em qualquer ano da última década, a despeito de cortes orçamentários na Capes e no CNPq. Isso me diz algo sobre a natureza do campo — e sobre os pesquisadores que o habitam. Quando o financiamento escasseia, quem permanece é quem tem projeto. E o projeto, cada vez mais, tem rosto negro.
O Laboratório de Neuropsicologia Cognitiva da UFC, em Fortaleza, publicou em setembro um artigo em Neuropsychologia que mapeou padrões de memória de trabalho em adultos negros nordestinos em contexto de estresse crônico por insegurança alimentar. O achado central: a capacidade de memória de trabalho não declina de maneira uniforme sob estresse — há padrão de preservação seletiva para tarefas com valência emocional positiva forte, especialmente relacionadas a vínculos familiares. Isso tem implicação clínica direta. E tem implicação política: demonstra que o déficit cognitivo frequentemente atribuído a populações negras em contextos adversos é parcialmente artefato do instrumento de medição, não da capacidade.
Na UFBA, o grupo de Neurociência e Racismo coordenado pela professora Adriana Bastos entregou em julho o primeiro protocolo brasileiro de avaliação neuropsicológica com normatização para população negra adulta. Até aqui, os testes usados no Brasil eram normativizados com base em populações europeias ou norte-americanas. O resultado era o mesmo de sempre: escores mais baixos interpretados como déficit, sem controle para diferenças culturais e históricas na relação com avaliação formal. O protocolo da UFBA corrige a base. Não é pequena coisa — é a diferença entre um laudo que exclui e um que informa.
No campo da neurobiologia do estresse racial, 2025 confirmou o que a literatura internacional já vinha apontando: exposição crônica a eventos de discriminação altera de maneira mensurável a resposta do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Grupo da UFRJ publicou em Psychoneuroendocrinology dados de 340 homens negros residentes em favelas do Rio com medições de cortisol, DHEA e pressão arterial. A correlação entre frequência de eventos de discriminação autorrelados e nível basal de cortisol foi estatisticamente robusta. Não é metáfora: o racismo tem endereço bioquímico.
O que falta? Faltam recursos, mas falta sobretudo continuidade. Os grupos que mais produziram em 2025 são os que existem há pelo menos cinco anos, com bolsistas que seguiram no mesmo laboratório por mais de um ciclo. A neurociência se faz em tempo longo. Cortes de bolsa quebram não apenas projetos — quebram trajetórias de pesquisadores que não têm margem para esperar pela próxima janela de edital. Para 2026, o pedido é simples e urgente: que a Capes mantenha as bolsas de doutorado nos grupos que comprovaram produção. O retorno já foi demonstrado.
Contexto
Publicações em 2025: Levantamento da SBNeC (Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento) contabilizou 1.847 artigos com ao menos um autor brasileiro em periódicos indexados no Web of Science — crescimento de 11% sobre 2024. Grupos do Nordeste responderam por 23% do total, maior participação regional registrada.
Protocolo UFBA: Publicado em julho em Neuropsychological Rehabilitation. Normativizado com 2.200 adultos negros de cinco estados. Adotado pelo CFP como referência recomendada em laudos psicológicos para populações afrodescendentes.
Financiamento: CNPq cortou 18% das bolsas de doutorado em ciências da saúde por contingenciamento. Capes manteve cotas de 2024 sem novas vagas. Grupos do Norte e Nordeste foram proporcionalmente mais afetados — maior dependência de bolsa federal.
Cortisol e racismo — UFRJ: Estudo publicado em Psychoneuroendocrinology (out./2025). N=340 homens negros, favelas do Rio. Correlação entre discriminação autorrelada e cortisol basal: r=0,41, p<0,001. Efeito independente de renda, escolaridade e IMC.