Caderno: Saber
Tipo: reportagem
Semana: 48
Data: domingo, 30 de novembro de 2025

Tecnologia brasileira 2025 — SaaS nacional

Por: Caio Vitor
Empresas que cresceram. Fundadores negros. Clientes globais.

Análise

O Brasil termina 2025 com um dado que merecia manchete e não teve: pelo menos doze startups SaaS nacionais ultrapassaram um milhão de dólares em receita recorrente anual com clientes fora do país. Em seis delas, o fundador principal é negro. Não é anedota — é inflexão. Por anos, a narrativa sobre empreendedorismo negro situava o sucesso no varejo popular, no MEI, na sobrevivência. O SaaS muda o endereço desse argumento: o produto parte do Brasil, o contrato chega em dólar ou euro, e quem comanda o P&L tem sobrenome de quilombo ou de iorubá aportuguesado.

A Ubistart, de Fortaleza, é o exemplo mais citado nos bastidores do ecossistema. Fundada por Kelson Araújo, 38, engenheiro formado na UFC com bolsa FIES, a empresa desenvolveu plataforma de gestão de contratos para clínicas odontológicas e fechou 2025 com escritório em Lisboa e clientes em sete países lusófonos. Receita projetada: R$ 14 milhões. Kelson não aparece nos rankings de Forbes Brasil porque Forbes Brasil ainda não sabe onde olhar. Mas a tração da Ubistart foi notada pela Y Combinator em março e pela Abstartups em julho.

O que produziu este movimento não foi sorte. Foi combinação de três fatores estruturais. Primeiro, o Pix democratizou acesso a infraestrutura de pagamentos e reduziu o custo de entrada para produtos financeiros embarcados. Segundo, ferramentas de IA generativa para código reduziram o time-to-market de meses para semanas. Terceiro, e menos discutido: a geração que entrou nas federais pelas cotas em 2013 e 2014 se formou, ganhou experiência e chegou à meia-carreira com capital técnico e, em alguns casos, capital inicial.

Este terceiro fator é o mais incômodo para quem prefere separar política pública de resultado econômico. Em 2025, pelo menos quatro dos seis fundadores negros de SaaS com tração global passaram por federais — UFMG, UFC, UFRJ, UTFPR. Dois têm mestrado. Nenhum veio de família com patrimônio relevante. A equação é direta: acesso à universidade pública de qualidade gerou massa crítica suficiente para que o empreendedorismo de alto valor fosse opção real.

Há limitações sérias. Acesso a capital de risco ainda é desigual: pesquisa da ABVCAP divulgada em outubro mostra que fundadores negros recebem 38% menos na rodada semente do que brancos com métricas equivalentes. O viés está nos gatekeepers — redes de indicação, avaliação subjetiva de "fit" — não no produto. Kelson foi a um pitch em São Paulo e ouviu que o mercado-alvo "parecia informal". Odontologia não é informal.

O que 2025 demonstra é que o caminho existe. O desafio do próximo ciclo não é convencer o mercado de que empreendedores negros são competitivos em escala global. É corrigir os mecanismos de financiamento que continuam a extrair desconto de quem já provou que não o merece.

Contexto

SaaS nacional em 2025: O segmento movimentou R$ 42 bilhões no Brasil, crescimento de 22% sobre 2024, segundo a ABES. Exportações de software responderam por 8% da receita do setor — patamar histórico.

Cotas e tecnologia: Dados da SBC indicam que 31% dos concluintes de Ciência da Computação e Engenharia de Software em federais em 2025 são negros ou pardos — contra 11% em 2012. A geração formada sob a lei começa a marcar presença em posições sêniores e na fundação de empresas.

Viés no capital de risco: Pesquisa da ABVCAP (out./2025) com 87 gestoras: apenas 14% das rodadas série A tiveram ao menos um fundador negro. Na semente, aporte médio para startups com fundador negro foi R$ 890 mil, contra R$ 1,44 milhão para equivalentes com fundadores brancos.

Ecossistema regional: Fortaleza, Recife e Salvador concentraram parte desproporcional das startups fundadas por negros em 2025 — reflexo das federais de qualidade no Nordeste e do custo operacional abaixo do praticado em São Paulo.