Caderno: Saber
Tipo: ensaio
Semana: 41
Data: domingo, 12 de outubro de 2025

Primeira infância negra — ciência e política 2025

Por: Henrique Araújo
Vínculo, trauma, linguagem. Política Marco Legal.

Análise

A ciência do desenvolvimento infantil firmou nas últimas duas décadas um consenso que a política pública brasileira ainda não incorporou por inteiro: os primeiros mil dias de vida — da concepção aos dois anos — são o período de maior plasticidade cerebral e maior vulnerabilidade a estressores ambientais. Para crianças negras brasileiras nascidas em contextos de pobreza urbana, esse período concentra riscos que se acumulam e se amplificam: insegurança alimentar, exposição a violência, mãe sem rede de apoio, pai ausente por encarceramento ou morte violenta. A política social existe, mas chega fragmentada.

O Marco Legal da Primeira Infância (Lei 13.257/2016) completou nove anos em 2025 e o balanço revela avanços nos indicadores agregados e fosso persistente por raça. A cobertura de creches públicas para crianças de 0 a 3 anos chegou a 38% em 2024, segundo o Inep — crescimento real desde os 28% de 2016. Mas entre famílias negras no quintil de renda mais baixo, a taxa de acesso a creche de qualidade cai para 22%. A lei ampliou o direito; não garantiu a equidade no acesso.

A literatura sobre vínculo e desenvolvimento cognitivo é clara quanto ao papel da figura paterna nos primeiros anos. Estudos da USP e da UFBA publicados entre 2023 e 2025 mostram que a presença estável de um pai ou figura paterna nas interações com a criança entre 6 e 24 meses está associada a maior desenvolvimento de linguagem e menor taxa de comportamento de risco na adolescência — efeito que persiste após controle de renda. Para famílias negras, onde o encarceramento masculino retira homens em idade ativa a uma taxa três vezes maior que entre brancos (dados do DEPEN, 2024), o impacto sobre a primeira infância é direto e quantificável.

Élcio, 29, mora em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, e tem um filho de 14 meses. Trabalha como motoboy seis dias por semana, das 8h às 22h. Sabe que deveria estar mais presente; a jornada não permite. "Eu sei que esse tempo importa. Mas eu não tenho como parar — se paro, não tem leite", disse em entrevista em setembro. A ciência do vínculo não dialoga com a economia do trabalho precário — e para o homem negro jovem em periferias brasileiras, a segunda governa a vida com mais força que a primeira.

A política do Marco Legal avançou em licença-maternidade e em creche, mas não construiu ponte para o pai negro de baixa renda. A licença-paternidade de cinco dias, extendível para vinte em empresas do Programa Empresa Cidadã, não alcança o trabalhador informal — que representa 46% dos homens negros empregados segundo o IBGE/Pnad de 2024. A infância negra brasileira precisa de políticas que reconheçam que o cuidado paterno é desejo e não apenas ausência — e que removam as barreiras econômicas que transformam o primeiro em impossibilidade prática.

Outubro de 2025 não é mês simbólico para a primeira infância — é mês de orçamento. O PLOA 2026 entra em votação no Congresso com corte de 12% no Programa Criança Feliz, principal política de visitação domiciliar para famílias em vulnerabilidade. Se o corte passar, serão 180 mil famílias a menos no programa em 2026 — e a ciência é inequívoca sobre o que a visitação domiciliar faz pelos primeiros dois anos de vida de crianças em contexto de pobreza.

Contexto

Marco Legal da Primeira Infância: Lei 13.257/2016 cobre 0 a 6 anos. Ampliou licença-maternidade, reforçou direito à creche, criou o Programa Criança Feliz. Revisão prevista para 2026.

Creche (2024): Cobertura nacional 0–3 anos: 38%; meta PNE 2024-2034: 60%. Famílias negras no Q1 de renda têm acesso 16 pontos abaixo da média (Inep/2024). Licença-paternidade de 5 dias (20 no Empresa Cidadã) não alcança informais — 46% dos homens negros empregados (IBGE/Pnad 2024).

Encarceramento: 830 mil presos no Brasil (DEPEN, 2024); 68% negros. Homens negros de 18–35 anos são encarcerados a taxa 8 vezes maior que brancos na mesma faixa.

Criança Feliz 2025: 1,1 milhão de famílias atendidas. Corte de R$ 320 milhões (12%) no PLOA 2026. Decisão no Congresso em novembro.