Caderno: Saber
Tipo: reportagem
Semana: 40
Data: domingo, 5 de outubro de 2025

IA nas escolas 2025 — mapa atualizado

Por: Gérson Neto
Plataformas em uso. Supervisão aplicada.

Análise

Em outubro de 2025, a IA já está dentro das salas de aula brasileiras — mas de forma desigual, fragmentada e, em muitos casos, sem supervisão pedagógica consistente. Visitei escolas estaduais em São Paulo, Bahia e Pernambuco entre agosto e setembro para mapear o que de fato funciona. O que encontrei não é o futuro prometido nos anúncios de edtech: é uma realidade de tablets descarregados, professores sem formação e plataformas implementadas por decreto estadual sem acompanhamento de campo.

O MEC não tem uma política unificada de IA para a educação básica em 2025. O que existe é um conjunto de programas paralelos: o Conecta Escola, que leva internet às escolas públicas com meta de 100% até 2026; o Programa IA para Todos, parceria com Microsoft e Google lançada em junho; e iniciativas estaduais autônomas, como o projeto Fênix em São Paulo e o Edutech Nordeste no Ceará e Piauí. A ausência de coordenação federal cria um mapa irregular: escolas a dez quilômetros de distância usando plataformas diferentes, com objetivos diferentes, sem compatibilidade de dados.

Em uma escola estadual em Feira de Santana, Bahia, a professora Conceição, 48, de matemática, usa o Khan Academy com IA adaptativa desde março. Ela foi treinada por três horas em fevereiro e desde então opera sozinha. "Funciona quando funciona a internet", disse. A plataforma ajusta o nível de exercícios por aluno e ela consegue ver o relatório de desempenho. Mas não sabe interpretar os alertas de IA que aparecem para alunos com padrão de erro persistente — aqueles alertas ficam na tela sem resposta pedagógica. A ferramenta existe; a supervisão humana, não.

Em São Paulo, o projeto Fênix distribuiu tablets com o aplicativo Plurall para 800 escolas estaduais a partir de abril. O diferencial, em tese, é a formação continuada: coordenadores pedagógicos recebem encontros mensais com consultores da plataforma. Na prática, a carga administrativa dos coordenadores é tão alta que os encontros viram mais um item de agenda do que espaço de reflexão. Diego, 34, coordenador em Itaquera, relata que ainda não leu o módulo de interpretação de dados que recebeu em maio. "A semana não tem dia para isso."

O padrão que emerge é este: plataformas de IA chegam às escolas por indução estadual ou federal, os professores recebem treinamento mínimo, a supervisão humana é nominal. Onde a supervisão funciona — casos pontuais em Fortaleza e no ABC paulista — o diferencial é sempre o mesmo: um gestor escolar que fez da IA prioridade institucional, não item de compliance. Sem esse agente humano comprometido, a plataforma vira infraestrutura subutilizada.

A questão racial atravessa o mapa de forma previsível: escolas com maior proporção de alunos negros e de baixa renda estão nas zonas com conectividade mais instável e menor oferta de formação docente. A IA que deveria reduzir desigualdade de aprendizagem reproduz, na camada de acesso, a desigualdade que promete combater. Não é paradoxo — é estrutura.

Contexto

Conecta Escola: Programa federal (2023) com meta de conectar 138 mil escolas até 2026. Em outubro de 2025, 74% têm internet; apenas 51% com velocidade acima de 50 Mbps — mínimo para uso estável de IA em sala (CGI.br).

Plataformas: Khan Academy (IA adaptativa), Google for Education com Gemini (março 2025), Plurall (SP), Alura para Educação (MEC). Sem interoperabilidade entre si.

Formação docente: Fundação Lemann (setembro 2025), 2.200 professores: 68% sem formação em IA educacional; 41% usam IA por conta própria. Em periferias de grandes cidades, 54% usam sem orientação.

Marco legal: PL 2.338/2023 aprovado no Senado em dezembro de 2024, em tramitação na Câmara. Sem artigo específico para educação básica — lacuna apontada pelo Cetic.br em agosto de 2025.