Caderno: Saber
Tipo: ensaio
Semana: 39
Data: domingo, 28 de setembro de 2025

Burnout executivo — o protocolo que propomos em 2025

Por: Gérson Neto
Dez casos clínicos. Sinais. Protocolos.

Análise

Ao longo de 2025 acompanhei dez casos clínicos de executivos negros em altura de carreira — diretores, gerentes sêniors, um CFO — que chegaram ao consultório com queixas sobreponíveis: insônia de manutenção, irritabilidade desproporcional, anestesia afetiva diante de conquistas que antes mobilizavam orgulho. Todos estavam, tecnicamente, no pico. Nenhum se reconhecia em colapso. Essa dissociação entre desempenho visível e esgotamento interno é a marca clínica do burnout executivo negro em 2025 — e exige protocolo que vai além do checklist da CID-11.

O que diferencia esses casos não é o volume de trabalho — este é comparável ao de executivos brancos em posições equivalentes. É a camada adicional de vigilância permanente que o corpo negro sustenta no ambiente corporativo: monitorar o tom de voz para não ser lido como agressivo, calibrar a assertividade para não ativar o estereótipo da ameaça, traduzir culturalmente cada reunião antes de entrar nela. Nas últimas duas décadas, a neurociência social produziu evidência robusta de que esse tipo de vigilância antecipatória ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal de forma crônica — elevando o cortisol basal a níveis que, mantidos por anos, comprometem memória de trabalho, regulação emocional e sono profundo.

Em setembro de 2025, proponho nomear esse fenômeno com precisão clínica: síndrome de vigilância racial de alta performance. Não é diagnóstico novo — é nomeação funcional para um padrão que aparece na literatura sob termos dispersos (racial battle fatigue, minority stress, John Henryism) e que precisa de nome operacional para a clínica brasileira. O CFO que atendo — 44 anos, formado pela FGV, segunda geração na empresa — levou quatro meses para aceitar que o que sentia era adoecimento, não fraqueza de caráter.

O protocolo que desenvolvemos combina três eixos. Primeiro, psicoeducação focada na fisiologia do estresse racial: mostrar ao paciente os dados de cortisol, explicar o eixo HHA, desnaturalizar a fadiga. Segundo, intervenção comportamental em rotina: redução de reuniões após 17h, janelas de restauro cognitivo de 20 minutos sem tela, prática de atividade aeróbica três vezes por semana — não como wellness, mas como regulação neuroendócrina mensurada. Terceiro, trabalho identitário: nomear o racismo como estressor externo, não como déficit interno do paciente. Esse terceiro eixo é o mais resistido e o mais necessário.

Dos dez casos, seis retornaram ao trabalho pleno em até seis meses com o protocolo completo. Dois precisaram de afastamento formal; um saiu do cargo voluntariamente. Um permanece em acompanhamento semanal. O dado que mais me interessa: dos seis que retornaram, cinco negociaram alguma mudança estrutural no ambiente — flexibilidade de horário, redução de reuniões presenciais, mentoria institucional. A recuperação individual sem mudança ambiental tem prazo de validade curto.

Setembro é quando o mercado retoma após julho e o corpo executivo acumula três meses seguidos de demanda. É hora de pausa preventiva, não de espera pelo colapso. O burnout não chega com alarme; chega quando a capacidade de reconhecê-lo já está comprometida.

Contexto

CID-11: A OMS classifica burnout (QD85) como fenômeno ocupacional — exaustão, cinismo, eficácia reduzida. Vigente no Brasil desde 2022. O INSS reconhece o nexo com afastamento desde 2023 mediante laudo psiquiátrico.

Dados 2025: Pesquisa da FDC com 600 executivos negros (março): 41% relatam exaustão crônica contra 27% entre brancos na mesma faixa hierárquica — diferença de 14 pontos que coincide com estudos de minority stress em alta performance.

John Henryism: Conceito do epidemiologista Sherman James (anos 1980): esforço de alta intensidade como resposta a obstáculos crônicos, associado a hipertensão em homens negros. Retomado por pesquisadores de USP e UFBA entre 2022 e 2025.

Protocolo: Desenvolvido no consultório em São Paulo. Três eixos: psicoeducação neuroendócrina, intervenção comportamental e trabalho identitário. Publicação em periódico nacional prevista para 2026.