Caderno: Saber
Tipo: reportagem
Semana: 37
Data: domingo, 14 de setembro de 2025

Saúde mental da juventude negra — o que o CAPS infantojuvenil vê

Por: Gérson Neto
Apuração em SP, RJ, BA. Queixas, encaminhamentos, esperas.

Análise

O que os CAPS infantojuvenis de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador viram em 2025 não cabe nas estatísticas habituais de saúde mental adolescente. A pressão sobre esses serviços cresceu, as filas de espera aumentaram, mas o dado que mais importa não é quantitativo: é qualitativo. Os profissionais que atuam nessas unidades descrevem, com vocabulário convergente, um tipo específico de sofrimento que está chegando com mais frequência — e que tem endereço racial preciso.

Em Santo André, no ABC paulista, o psicólogo Marcos Rocha, do CAPS Infanto do bairro Camilópolis, atende desde fevereiro uma média de três novos casos por semana de adolescentes negros entre 14 e 17 anos encaminhados pela escola por episódios que combinam retraimento, recusa escolar e, em alguns casos, automutilação não suicida. A queixa inicial na anamnese raramente menciona racismo. Surge na segunda ou terceira sessão, por vezes na quinta. O tempo que leva para nomear o que acontece é ele mesmo um dado clínico.

No Rio, o CAPS IJ do bairro de Realengo atendeu em 2025, até agosto, 214 adolescentes com algum quadro de ansiedade ou depressão. Desses, 78% eram negros — proporção que acompanha a demografica do bairro, mas que o coordenador Marcus Vinícius Lopes destaca como indicador de que o serviço está chegando ao público que precisa, coisa que não era verdade há cinco anos. O desafio não é mais o acesso inicial — é a continuidade: 40% dos adolescentes interrompem o acompanhamento antes de três meses, e os motivos mapeados são transporte, horário escolar e, em menor proporção, resistência familiar ao diagnóstico de saúde mental.

Em Salvador, o CAPS IJ do Subúrbio Ferroviário concentra os casos mais complexos da rede municipal. A coordenadora Edilane Santos relata que a maior novidade de 2025 é o aumento de encaminhamentos relacionados a violência digital — bullying racial em grupos de WhatsApp e Instagram de turmas escolares. O perfil: menino negro, 13 a 16 anos, escola pública, agravo iniciado online e que migra para isolamento presencial. O tratamento exige articulação com a escola e, frequentemente, com o Conselho Tutelar — o que multiplica o tempo de trabalho e sobrecarrega equipes já reduzidas.

A síntese clínica que emerge desses três cenários é direta: a saúde mental da juventude negra não é apenas déficit de serviço — é déficit de reconhecimento de que racismo, em suas formas cotidianas e digitais, opera como fator etiológico. Os protocolos de triagem dos CAPSs ainda não incorporam, de forma sistemática, a investigação de experiências de discriminação racial como parte da anamnese padrão. Quando esse dado não é coletado desde a entrada, o tratamento começa com uma lacuna que os meses seguintes dificilmente recuperam.

Contexto

CAPS IJ Camilópolis, Santo André: Psicólogo Marcos Rocha atende desde fevereiro 2025 média de 3 novos casos/semana de adolescentes negros (14–17 anos) com retraimento, recusa escolar e automutilação não suicida. Racismo emerge como tema na 2ª ou 3ª sessão, raramente na entrada.

CAPS IJ Realengo, RJ: 214 adolescentes com ansiedade ou depressão atendidos até agosto 2025; 78% negros. Taxa de abandono antes de 3 meses: 40%. Motivos: transporte, horário escolar, resistência familiar ao diagnóstico. Coordenador: Marcus Vinícius Lopes.

CAPS IJ Subúrbio Ferroviário, Salvador: Aumento em 2025 de encaminhamentos por bullying racial digital (WhatsApp e Instagram de turmas). Perfil predominante: menino negro, 13–16 anos, escola pública. Coordenadora: Edilane Santos.

Lacuna nos protocolos: Triagem nos CAPSs não incorpora sistematicamente investigação de experiências de discriminação racial como fator etiológico na anamnese padrão.