Caderno: Saber
Tipo: ensaio
Semana: 36
Data: domingo, 7 de setembro de 2025

Currículo de história 2025 — Independência e versões

Por: Henrique Araújo
Como as escolas ensinam 7 de setembro. BNCC em aplicação.

Análise

Em setembro de 2025, com o 7 de setembro chegando, 48 professoras de história do ensino médio público responderam a um questionário sobre o que ensinaram sobre a Independência do Brasil naquele ano. Os dados coletados pela pesquisadora Fernanda Lima, da Faculdade de Educação da UFMG, revelam um quadro que a BNCC não resolve e que as formações continuadas tampouco têm conseguido mudar: a Independência ainda é ensinada, na maior parte das escolas públicas brasileiras, como evento protagonizado por dom Pedro I num campo de São Paulo, com Joaquim José da Silva Xavier como pré-história e os africanos escravizados como presença decorativa.

Não é questão de má-fé do professor. É questão de qual história cabe no livro didático aprovado pelo PNLD, de quanto tempo sobra depois de cobrir a matéria do vestibular, e de qual versão da Independência o sistema avaliativo reforça como central. A BNCC de 2018 incorporou, com resistência de parte do campo conservador, a exigência de trabalhar com "diferentes versões" da história nacional. O que virou isso na prática, sete anos depois, é variável segundo o Estado, a rede e a formação do professor.

Em escolas públicas de Salvador, pesquisa de campo com quatro unidades no bairro do Cabula mostrou que dois dos quatro professores trabalharam em 2025 com a figura de Luísa Mahin como entrada para a discussão sobre escravizados e resistência no período da Independência. Os outros dois não tocaram no tema. A diferença não é de inteligência nem de comprometimento — é de qual formação continuada aquele professor teve acesso, e de qual editora publicou o livro que sua escola recebeu. O currículo real é sempre uma negociação entre o prescrito e o possível.

O que torna setembro de 2025 um ponto de observação relevante é a combinação de dois movimentos simultâneos. De um lado, crescem as iniciativas de professores negros que constroem materiais próprios — sequências didáticas sobre quilombos, sobre a presença africana no processo de independência das províncias do Norte e Nordeste, sobre a Confederação do Equador de 1824 como evento que a versão cariocêntrica da história apaga. De outro, o sistema de avaliação em larga escala — Enem, Saeb — continua priorizando uma narrativa que raramente posiciona o sujeito negro como agente histórico. Essa tensão não vai se resolver sem decisão política explícita sobre o que a prova deve perguntar.

Nenhuma BNCC, por si só, muda o que o professor de história de uma escola pública em Teresina ensina na semana do 7 de setembro. Muda o conjunto de condições materiais, de tempo de aula, de acesso a material atualizado, de avaliação que valorize múltiplas perspectivas. Enquanto essas condições não mudarem, a comemoração da Independência continuará sendo, para a maioria dos estudantes negros nas escolas públicas brasileiras, a história de outros.

Contexto

Pesquisa UFMG 2025: Fernanda Lima (FaE/UFMG) aplicou questionário a 48 professoras de história do ensino médio público em setembro 2025 sobre conteúdo ensinado sobre a Independência. Resultado: maioria mantém narrativa centrada em dom Pedro I, com africanos escravizados como presença marginal.

BNCC e livro didático: A BNCC de 2018 exige trabalho com "diferentes versões" da história nacional. Na prática, a implementação varia por Estado, rede e coleção do PNLD aprovada. Formação continuada insuficiente para atualização das abordagens.

Salvador — pesquisa de campo 2025: Quatro escolas no bairro do Cabula. Dois professores trabalharam com Luísa Mahin como entrada para resistência escravizada no período da Independência; dois não abordaram o tema. A variável determinante foi acesso a formação continuada e coleção didática recebida.

Enem e Saeb: Sistema de avaliação em larga escala ainda prioriza narrativa em que o sujeito negro raramente aparece como agente histórico. Tensão com os movimentos de produção autoral de material didático por professores negros.