Análise
O Sisu de meio de ano 2025 confirmou uma tendência que os dados do Inep vinham desenhando há três edições consecutivas: a segunda chamada é o único ponto de entrada real para uma fração significativa de estudantes negros nas universidades federais. Em agosto, quando o MEC divulgou os números da lista de espera, o padrão ficou legível: candidatos pretos e pardos representaram 61% dos chamados em segunda chamada nas regiões Norte e Nordeste, contra 44% na primeira chamada das mesmas instituições. Não é acidente. É o efeito combinado de renda, mobilidade e acesso à internet de qualidade durante o Enem.
A segunda chamada do Sisu funciona, na prática, como um sistema de absorção de perdas. O candidato que ficou em lista de espera frequentemente não tem como sustentar dois ou três meses de espera sem renda — e aí a desistência, que aparece nas planilhas como dado neutro, carrega peso socioeconômico preciso. Em 2025, das 18.400 vagas que entraram em segunda chamada pelo sistema, cerca de 4.200 ficaram ociosas porque os candidatos convocados não compareceram à matrícula. Fontes do MEC ouvidas para esta análise estimam que ao menos metade desses casos envolve impossibilidade logística: custo de deslocamento, falta de moradia estudantil, incompatibilidade com emprego informal.
O sistema de cotas cumpre sua função de ingresso, mas esbarra numa segunda parede que a legislação ainda não endereçou com rigor: a permanência nos primeiros dois semestres. Três coordenadores de assistência estudantil em federais do Nordeste relatam que a procura por auxílio emergencial cresceu 23% no segundo semestre de 2025 em relação ao mesmo período de 2024. O orçamento do PNAES, porém, foi reajustado abaixo da inflação pelo quarto ano seguido.
Olhar a segunda chamada apenas como estatística de vagas preenchidas é um erro de leitura. Cada convocação representa um candidato que acertou pontuação suficiente, inscreveu-se dentro de prazo, esperou meses — e ainda assim chegou depois. A demora não é déficit do estudante; é custo externalizado pelo sistema. Quando a UFBA convocou 340 estudantes em segunda chamada para os cursos vespertinos de Ciências Sociais, Letras e Pedagogia, os gestores sabiam que a taxa de comparecimento histórica é de 68%. Os 32% que ficam de fora não somem — entram em listas de espera de outras instituições, ou desistem do semestre inteiro.
O dado que obriga a uma reavaliação mais honesta é geográfico. Nas cinco federais da região Sul, a segunda chamada de agosto trouxe candidatos com perfil socioeconômico mais homogêneo — renda familiar mediana acima de três salários mínimos em 71% dos convocados. Nas federais do Maranhão, Piauí e Pará, esse índice inverteu: 67% dos convocados declararam renda familiar abaixo de um salário mínimo e meio. O Sisu é um sistema nacional, mas entrega resultados profundamente regionalizados, e a segunda chamada amplifica essa assimetria.
A leitura por raça exige inferência: o MEC cruza cor/raça com inscrição, não com matrícula efetiva. Mas renda e região combinados são suficientes — o estudante negro que chega pelas vagas de reserva em agosto 2025 entrou depois, com menos suporte, numa estrutura que ainda não aprendeu a segurá-lo até o diploma.
Contexto
Sisu segunda chamada 2025: 18.400 vagas redistribuídas em agosto; taxa de comparecimento nacional de 72%; 4.200 vagas ociosas por não comparecimento. Portal MEC, agosto 2025.
Distribuição racial estimada: Pretos e pardos foram 61% dos convocados em segunda chamada no Norte e Nordeste, contra 44% na primeira chamada (cruzamento Inep/Sisu, agosto 2025).
PNAES: Orçamento reajustado abaixo da inflação pelo quarto ano seguido. Demanda por auxílio emergencial cresceu 23% no segundo semestre em federais do Nordeste.
Perfil de renda por região: Federais do MA, PI e PA: 67% dos convocados em segunda chamada com renda familiar abaixo de 1,5 salário mínimo. Federais do Sul: 71% acima de 3 salários mínimos.