Caderno: Saber
Tipo: reportagem
Semana: 31
Data: domingo, 3 de agosto de 2025

Agosto Amarelo — saúde mental do homem negro 2025

Por: Nádia Ferreira
Suicídio masculino. Dados atualizados. Prevenção e CVV.

Análise

O Brasil registrou em 2024 — os dados do Ministério da Saúde chegaram em junho de 2025 — 14.800 mortes por suicídio. Homens respondem por 79% dessas mortes. Homens negros, que são 56% da população masculina do país, respondem por 48% dos casos masculinos — uma subrepresentação que parece positiva até se entender o que está por trás: homens negros morrem mais cedo por outras causas violentas antes de chegar às taxas de suicídio que a vulnerabilidade socioeconômica geraria. Quando a violência letal é controlada, a taxa de suicídio em homens negros jovens de 15 a 29 anos é a que mais cresce no país: alta de 22% entre 2019 e 2024.

Agosto Amarelo chega este ano com um problema de comunicação que não mudou o suficiente: a campanha ainda fala de suicídio como se o silêncio fosse o único inimigo. Para homens negros, o silêncio é real, mas a causa não é apenas cultural. É também estrutural. Um homem negro que precisar de atendimento psicológico no SUS em São Paulo esperará, em média, 47 dias por uma consulta no CAPS. Em Salvador, o tempo de espera para primeira consulta psiquiátrica na rede pública era de três meses em maio de 2025, conforme dado da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia. Pedir ajuda exige, além de coragem, tempo e mobilidade que muitos não têm. A campanha que só diz "fale" sem falar sobre onde ir é uma campanha incompleta.

A masculinidade tem papel nessa equação, e seria desonesto não nomear. Homens são ensinados — e homens negros recebem essa formação em versão amplificada, porque a virilidade aparece como compensação simbólica para o que o racismo retira — a resolver problemas sem pedir ajuda, a não demonstrar fragilidade, a suportar sem falar. O clínico que não pergunta diretamente sobre ideação suicida a um paciente homem porque acha que "ele diria se estivesse mal" está cometendo um erro epidemiológico. Homens em sofrimento ativo frequentemente não dizem. Frequentemente, também, não reconhecem o que sentem como sofrimento psíquico — relatam insônia, dor de cabeça, irritabilidade, problemas no trabalho.

O CVV, que atende por telefone no 188, registrou em 2024 aumento de 31% nos contatos de homens negros entre 18 e 40 anos. O dado foi divulgado pelo próprio CVV em julho de 2025 e é, ao mesmo tempo, um sinal de fracasso — mais homens em crise — e de avanço: mais homens alcançando o serviço. O CVV tem formado voluntários com recorte racial desde 2023, e a escuta que reconhece a experiência do racismo como fator de sofrimento legítimo — não como desculpa, mas como dado clínico — produz atendimentos de melhor qualidade. Isso não é opinião. É o que os próprios usuários relatam nas pesquisas de satisfação.

Prevenção de suicídio em homens negros exige intervenção em três camadas simultâneas: acesso a serviço — reduzir filas, ampliar CAPS, facilitar teleassistência; formação de agentes — médicos, professores, líderes comunitários capazes de identificar o sofrimento antes da crise aguda; e comunicação culturalmente situada — que fale com o homem negro onde ele está, com a linguagem que ele reconhece. As três camadas existem no papel das políticas públicas de 2025. Na prática, a terceira quase não sai do discurso.

Contexto

Mortes por suicídio em 2024: 14.800 casos registrados (Ministério da Saúde, junho 2025). 79% masculinos. Taxa em homens negros de 15 a 29 anos cresceu 22% entre 2019 e 2024.

Tempo de espera no SUS: 47 dias para consulta psicológica no CAPS em São Paulo (dado CFP-SP, 2025). Até três meses para primeira consulta psiquiátrica em Salvador (Secretaria de Saúde da Bahia, maio 2025).

CVV em 2025: 0800 701 0459 / 188. Em 2024, o CVV registrou 31% de crescimento nos contatos de homens negros entre 18 e 40 anos. Formação de voluntários com recorte racial iniciada em 2023.

Política nacional: O Plano Nacional de Prevenção do Suicídio 2023–2027 prevê ação específica para populações vulneráveis, incluindo homens negros, com metas de expansão de CAPS e capacitação de agentes de saúde comunitária — implementação ainda parcial até julho de 2025.