Análise
O dado mais recente do Inep, divulgado em março de 2025 com base no Censo Escolar 2024, é claro e perturbador: meninos negros têm taxa de reprovação no Ensino Fundamental 2,3 vezes maior do que meninos brancos de renda equivalente. Controlando pela variável renda, a diferença persiste — o que descarta a explicação pela pobreza como causa suficiente e obriga a perguntar o que a escola faz de diferente com o corpo de uma criança negra. A resposta que a literatura vem acumulando nos últimos dez anos é igualmente clara: faz mais. Faz mais suspensões, mais encaminhamentos ao reforço, mais convocações de responsáveis, mais diagnósticos de transtorno comportamental. O menino negro não está em desvantagem apenas pelo que falta — está em desvantagem pelo que sobra, em forma de vigilância, punição e patologização.
A pesquisadora Luciana Jaccoud, do Ipea, publicou em 2024 uma análise longitudinal de 12 mil crianças do Ensino Fundamental em escolas públicas de cinco regiões. O dado mais incômodo: professores com formação continuada em relações raciais punem meninos negros com suspensão em taxa 40% menor do que professores sem essa formação — para comportamentos idênticos registrados em vídeo. A formação não muda o comportamento da criança. Muda a leitura que o adulto faz dele. Isso significa que o problema não é o menino negro — é o olho que o lê como problema.
Há, porém, a dimensão do afeto, que os dados quantitativos capturam mal. Conversei em julho com Evanildo, 38, professor de matemática em escola estadual de Camaçari, na Bahia. Ele tem doze anos de sala e é um dos dois professores negros do corpo docente de 40. "Quando eu entro, alguns meninos já relaxam. É físico. Eles veem que dá para existir assim aqui dentro." Evanildo não é exceção anedótica — é o que a literatura chama de role model effect, mensurado em estudos americanos desde os anos 1990 e confirmado no Brasil por pesquisa da PUC-Rio de 2023 que seguiu 3.200 alunos de escolas com alta proporção de professores negros: esses alunos apresentavam menor evasão, maior intenção de cursar o Ensino Médio completo e menor incidência de encaminhamento disciplinar.
O vínculo entre professores negros e alunos negros não é sentimentalismo pedagógico — é neurociência da aprendizagem. O córtex pré-frontal, responsável pela regulação emocional e pela atenção sustentada, funciona em estado de alerta em ambientes percebidos como ameaçadores. Uma criança que sente o olhar do professor como potencialmente punitivo ativa resposta de estresse que compromete diretamente a memória de trabalho. Colocar mais professores negros em sala não é política identitária de conforto — é intervenção sobre um mecanismo fisiológico real.
As escolas que estão fazendo isso bem em 2025 não são as mais ricas. São as que trataram o problema como pedagógico. O CIEP Abdias Nascimento, em Duque de Caxias, implementou em 2024 protocolo de acolhimento com mentoria por pares, registro de vínculos afetivos e treinamento docente bimestral em racismo escolar. A taxa de reprovação nos anos finais do EF caiu 18 pontos percentuais em um ano. Não é milagre — é método.
Contexto
Dado Inep 2025: Taxa de reprovação no EF para meninos negros de 6º ao 9º ano: 14,7%. Para meninos brancos de renda equivalente: 6,4%. Fonte: Censo Escolar 2024, divulgado pelo Inep em março de 2025.
Pesquisa Jaccoud (Ipea, 2024): Análise longitudinal de 12.312 crianças em SP, RJ, BA, PE e AM. Variável-chave: formação continuada docente em relações raciais reduz 40% a taxa de suspensão de meninos negros para comportamentos comparáveis.
Professores negros no EF: Dados do MEC (2024) indicam que 28% dos professores de Ensino Fundamental público se autodeclaram pretos ou pardos — proporção abaixo dos 56% de alunos negros no mesmo sistema.
Protocolo CIEP Abdias Nascimento (Duque de Caxias/RJ): Implementado em agosto de 2024 com apoio da Secretaria Municipal de Educação. Queda de 18 p.p. na reprovação dos anos finais do EF em 12 meses.