Análise
No quinto andar do Centro de Biociências da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, o Laboratório de Neurociência Cognitiva e Comportamental funciona com dez bolsistas de iniciação científica, três mestrandos e dois doutorandos — seis dos quais se autodeclaram pretos ou pardos. O coordenador, o professor Rodrigo Alves, 47, chegou à UFC em 2009 vindo de um pós-doutorado na UFRN. Filho de pescador de Acaraú, foi o primeiro da família a concluir o ensino médio e só chegou à universidade depois dos 25, via ENEM e sistema de cotas da UFC no momento em que a política começava a ser formalizada. Hoje publica em periódicos indexados na Web of Science e orienta pesquisadores que repetem a trajetória que ele não tinha exemplo para imaginar.
O laboratório trabalha com três linhas principais em 2025. A primeira investiga mecanismos de memória em adultos com experiência de racismo crônico, usando fMRI em parceria com o Hospital Universitário Walter Cantídio. A segunda mapeia desenvolvimento cognitivo em crianças de escolas públicas de Messejana e Bom Jardim — bairros de Fortaleza onde a população negra é majoritária e os índices de atraso escolar são acima da média municipal. A terceira linha é metodológica: o grupo está desenvolvendo instrumentos de avaliação neuropsicológica adaptados para o português falado no Nordeste, rejeitando a prática padrão de usar testes traduzidos do inglês que penalizam estruturas linguísticas regionais.
A segunda linha é onde o impacto social é mais imediato. Izabela, 26, mestranda que veio de Juazeiro do Norte com bolsa Capes, coordena coletas em três escolas. Ela descreve o desafio com precisão: "A gente aplica bateria cognitiva em criança de oito anos que dormiu mal porque a mãe trabalhava noite e o apartamento é quente. O resultado não é só neurociência — é condição de vida." O laboratório produziu, a partir dessas coletas, uma recomendação ao Conselho Municipal de Educação de Fortaleza sobre horário de entrada escolar e pausas cognitivas que foi incorporada a um projeto-piloto em quatro escolas a partir de agosto.
O financiamento é o nó. O grupo recebe uma bolsa de produtividade do CNPq — categoria PQ-2, menos recursos do que a PQ-1 —, um edital Funcap de 2024 e uma colaboração com a Universidade de Coimbra que gerou acesso compartilhado ao equipamento de imagem. Sem o acordo com Coimbra, o fMRI não existiria na equação: comprar tempo de máquina em Fortaleza custa entre R$ 800 e R$ 1.200 por sessão, inviável para a maioria dos projetos regionais. Essa dependência de infraestrutura estrangeira para fazer ciência nacional é uma das assimetrias que o campo raramente nomeia com clareza.
O que o laboratório da UFC representa não é exceção curiosa — é evidência de que neurociência feita no Norte e Nordeste, por pesquisadores negros, sobre populações negras e periféricas, produz perguntas que os centros do Sul e Sudeste não fazem. Perguntas sobre linguagem regional, sobre o efeito do calor urbano sobre cognição, sobre o que significa crescer em Messejana. Essa especificidade não é limitação metodológica — é contribuição epistêmica. E ela só existe se o financiamento existir para sustentá-la.
Contexto
O laboratório: Laboratório de Neurociência Cognitiva e Comportamental da UFC, Fortaleza. Fundado em 2011, publicou 14 artigos em periódicos internacionais entre 2022 e 2025, três com pesquisadores negros como primeiro autor.
Financiamento atual: Bolsa CNPq PQ-2 (R$ 1.650/mês), edital Funcap Pronem 2024 (R$ 180 mil, vigência 24 meses), acordo de cooperação com Universidade de Coimbra via CAPES-FCT.
Cotas na UFC: A UFC adotou cotas em 2004, antes da lei federal de 2012. Dados institucionais de 2025 indicam que 51% dos ingressantes via ENEM se autodeclaram pretos ou pardos — acima da média nacional das federais.
Contexto regional: O Ceará tem o 4º maior contingente populacional negro do Nordeste. Fortaleza registra índice de Gini de 0,57 (IBGE 2023) — uma das capitais mais desiguais do Brasil, com periferia predominantemente negra e parda.