Caderno: Saber
Tipo: ensaio
Semana: 27
Data: domingo, 6 de julho de 2025

Psicologia do torcedor — Mundial e pertencimento

Por: Gérson Neto
Identidade, pertencimento, ritual. Como a torcida negra brasileira elaborou o Mundial.

Análise

O Brasil ganhou o Mundial de Clubes de 2025 em julho, e nos dias seguintes as redes encheram de homens negros com as cores do Flamengo pintadas no rosto, abraçados nas calçadas de Madureira, de Heliópolis, de Pau da Lima. Não é euforia vazia: é um mecanismo psicológico mensurável. A psicologia social chama de identidade social partilhada o processo pelo qual um grupo encontra coesão e autoestima coletiva a partir de uma vitória simbólica comum. Para homens negros brasileiros, que em geral acumulam menos espaços de reconhecimento institucional, esse processo tem peso desproporcional — e é precisamente por isso que merece leitura clínica, não apenas jornalística.

Pertencimento não é sentimento difuso. Pesquisas do grupo de Henri Tajfel — cuja teoria da identidade social permanece referência obrigatória em programas de pós-graduação em psicologia social no Brasil — demonstram que a simples categorização num grupo produz favoritismo endogrupal e elevação de autoestima. Quando esse grupo vence em escala mundial, o efeito se amplifica. O que observei em consultório, nas semanas do torneio nos EUA, foi um dado recorrente: pacientes que relatavam dificuldade de pertencimento em ambientes corporativos ou educacionais descreveram, com vocabulário que não usam normalmente, uma sensação de legitimidade ao assistir Vinicius Jr. erguer a taça. Não é projeção romântica — é transferência de capital simbólico de uma arena para outra.

O ritual da torcida tem função regulatória sobre o sistema nervoso autônomo. O estudo de Nick Waddell e colegas (2023, Frontiers in Psychology) mediu variabilidade da frequência cardíaca em torcedores durante jogos decisivos e identificou que gritar junto, chorar junto age como regulação parassimpática em grupo, com efeito de até 48 horas. O homem que chora quando o gol entra passou por co-regulação emocional tão eficaz quanto técnicas de mindfulness — e o futebol é gratuito, comunitário e culturalmente negro no Brasil.

Há, porém, um risco que a literatura nomeia e eu prefiro não subestimar. O mesmo mecanismo que produz pertencimento pode, após a derrota ou o rebaixamento, gerar o que os psicólogos chamam de BIRG reverso — basking in reflected failure. Grupos com autoestima já pressionada por racismo estrutural são mais vulneráveis a esse efeito. Em 2023, após eliminações precoces da seleção em competições regionais, atendi três pacientes que relataram recaída em sintomas depressivos dentro de 72 horas da derrota. O futebol não é causa suficiente — mas foi gatilho em contexto de vulnerabilidade preexistente.

A torcida negra brasileira elaborou o Mundial de 2025 com uma sofisticação que me surpreendeu. Houve celebração, mas também análise pública da composição racial do elenco, das condições contratuais dos jogadores mais jovens, do que significa um time majoritariamente negro vencer um torneio global transmitido para 180 países. Gozo estético e consciência política simultâneos — é exatamente o que a psicologia do pertencimento saudável pressupõe: não fusão acrítica, mas identificação com agência.

Contexto

O torneio: O FIFA Club World Cup 2025 foi disputado nos EUA entre junho e julho, com 32 clubes. O Flamengo chegou à final e venceu, consolidando projeção global de um clube cuja torcida é majoritariamente negra e popular no Brasil.

Representação no elenco: Levantamento da Observatório do Futebol (UFMG) indica que mais de 70% dos jogadores do elenco profissional do Flamengo se autodeclaram pretos ou pardos — proporção acima da média da CBF.

Identidade social e raça: Estudo de Ângela Figueiredo e Osmundo Pinho (UFRB, 2024) mapeia como o futebol funciona como arena de afirmação racial para homens negros no Brasil, especialmente em periferias onde outras formas de reconhecimento são escassas.

Dado clínico: Pesquisa do IPq-USP (2024) identificou correlação entre grandes eventos esportivos e variação de humor em pacientes negros com histórico de depressão leve — bidirecional: melhora após vitórias, piora após derrotas.