Caderno: Saber
Tipo: análise
Semana: 26
Data: domingo, 29 de junho de 2025

Saber negro brasileiro no 1º semestre 2025 — uma cartografia

Por: Gérson Neto
Neurociência, IA, saúde mental, educação, pesquisa. Os artigos, as figuras, as hipóteses.

Análise

Seis meses de 2025 produziram, no caderno Saber, um conjunto de textos que não se encaixam em nenhuma categoria editorial confortável. Não são apenas divulgação científica — têm posição. Não são apenas opinião — têm dado. E, o mais importante: partem do pressuposto de que o homem negro brasileiro não é objeto de estudo, mas sujeito de uma produção intelectual que diz algo sobre o mundo, não apenas sobre si mesma. Fazer esse balanço implica reconhecer o que emergiu, o que ficou de fora e o que o próximo semestre precisa enfrentar.

Em neurociência, o semestre trouxe dois eixos centrais: a fadiga decisória como fenômeno mensurável — e agravado pela carga de monitoramento racial em ambientes corporativos — e o debate sobre trauma histórico, onde a literatura epigenética avança mas ainda não sustenta as afirmações mais amplas que circulam em textos de divulgação. Insistimos na distinção entre hipótese e evidência. Isso não é ceticismo — é responsabilidade com quem lê.

Em inteligência artificial, o semestre registrou três movimentos simultâneos: a chegada de ferramentas de IA ao consultório e à sala de aula, com supervisão humana ainda precária; a persistência do viés racial nos sistemas de reconhecimento facial, documentada em apuração com empresas brasileiras; e o início do debate legislativo sobre o marco legal da IA, com implicações diretas para RH, crédito e saúde mental. Em todos os três, a pergunta é a mesma: quem audita? E a resposta de 2025 ainda é insatisfatória.

Em saúde, o Junho Verde marcou a metade do semestre com dados que deveriam estar em qualquer agenda de política pública: mortalidade por câncer de próstata duas vezes maior em homens negros, diagnóstico tardio como regra, e abordagem ativa como o único modelo que comprovadamente alcança quem o SUS convencional não alcança. Em saúde mental, o CAPS como porta de entrada para o homem negro permanece travado por barreiras que não são de recurso — são de desenho institucional e de racismo estrutural no atendimento.

Em educação e pesquisa, o contingenciamento do CNPq e o corte de bolsas Capes de pós-doutorado foram os eventos mais relevantes do semestre — não porque sejam novidade, mas porque ameaçam reverter ganhos de uma geração inteira de pesquisadores negros que chegaram à pós-graduação pela política de cotas e estão agora no momento mais vulnerável de suas trajetórias. O segundo semestre começa com essa conta em aberto.

O que ficou fora? A saúde do homem negro periférico que não é executivo, não é pesquisador, não tem plano de saúde e acessa o SUS quando a dor já não espera. Esse homem apareceu lateralmente em alguns textos, mas merece eixo próprio. É onde o próximo semestre precisa ir.

Contexto

Neurociência: Temas centrais do 1º semestre — fadiga decisória e carga de monitoramento racial (w23), trauma histórico e epigenética (w20). Linha editorial: distinguir hipótese de evidência, nomear o substrato fisiológico sem naturalizar desigualdades.

IA: Viés racial em reconhecimento facial (w12), IA em RH e auditoria (w18), chegada ao consultório com supervisão precária (w7). Marco legal em tramitação no Congresso com impacto direto em decisões de crédito, saúde e emprego.

Saúde: Junho Verde — mortalidade por câncer de próstata 2x maior em homens negros, diagnóstico 3 anos mais tarde (w24). Barreiras de acesso ao CAPS documentadas em quatro capitais (w19). Abordagem ativa como modelo funcional.

Pesquisa e educação: Corte de R$ 312 milhões no CNPq (março), redução de 22% nas bolsas Capes de pós-doc exterior (w22). Risco de reversão dos ganhos de uma geração de pesquisadores negros que chegaram à pós-graduação pelas cotas e estão no momento mais vulnerável de suas trajetórias.