Análise
Em fevereiro de 2025, a Ambev anunciou a criação de um cargo de Diretor de Saúde Mental — título ainda sem sigla consolidada, mas que já circula como CMO, Chief Mental Officer, em grupos de RH corporativo. Dois meses depois, o Itaú Unibanco e a Natura seguiram com movimentos similares, ainda que com escopo diferente: no Itaú, a função foi integrada à diretoria de Diversidade; na Natura, reporta diretamente ao CEO. A diferença de posicionamento hierárquico não é cosmética — ela indica se saúde mental será tratada como questão de compliance ou como variável estratégica de produtividade e retenção.
Venho acompanhando esse movimento de perto. O que me interessa como neuropsicólogo não é o título em si, mas o que a emergência do cargo revela sobre como as corporações brasileiras estão finalmente lendo os dados que circulam há dez anos: afastamentos por transtornos mentais cresceram 38% entre 2019 e 2024 no Brasil, segundo o INSS, e transtornos de ansiedade e depressão respondem hoje por 40% das licenças médicas com mais de 15 dias nas empresas com mais de 500 funcionários. O dado mais recente, do primeiro trimestre de 2025, mostra que o custo direto com afastamentos psiquiátricos no setor formal ultrapassou R$ 4,2 bilhões anuais. Em algum momento, a conta deixou de ser absorvível sem responsável.
A função do CMO ainda não tem descrição de cargo padronizada. O que os três casos que acompanhei de perto têm em comum é uma tríade de atribuições: diagnóstico organizacional contínuo (clima, carga cognitiva, densidade de reuniões), curadoria e contratação de serviços de apoio psicológico — que vão além do EAP tradicional — e interface com a liderança para redesenhar processos que geram carga desnecessária. O perfil mais eficaz não é o do psicólogo clínico transplantado para o corporativo, mas o do profissional que transita entre evidência científica e linguagem de negócios: sabe ler um P&L, sabe interpretar uma meta-análise e sabe falar com o CFO sobre retorno do investimento em saúde mental.
O recorte racial importa aqui por duas razões. Primeira: executivos negros em posições de liderança carregam uma carga de monitoramento de identidade que não aparece nos surveys de clima tradicionais — e um CMO que não conhece essa literatura vai desenhar intervenções que ignoram parte relevante do problema. Segunda: os primeiros CMOs que vi nomeados no Brasil em 2025 são, sem exceção, brancos. A ironia é flagrante quando se considera que os grupos que mais se beneficiariam de uma saúde organizacional estruturada são justamente os que mais sofrem com as falhas do modelo atual.
O cargo existe, a função vai se consolidar. A questão é que repertório ele vai carregar — e se as empresas terão coragem de nomear pessoas que entendam o problema em sua totalidade.
Contexto
Movimentos corporativos em 2025: Ambev (fevereiro), Itaú Unibanco e Natura (abril) criaram cargos de Diretor de Saúde Mental com posicionamentos hierárquicos distintos — diversidade vs. reporte direto ao CEO. Sinal de que o campo ainda busca seu lugar no organograma.
Custo dos afastamentos: Transtornos mentais responderam por 40% das licenças médicas acima de 15 dias em empresas com mais de 500 funcionários em 2024. Custo direto estimado em R$ 4,2 bilhões anuais no setor formal (INSS, Q1 2025). Afastamentos psiquiátricos cresceram 38% entre 2019 e 2024.
Perfil do cargo: Tríade — diagnóstico organizacional contínuo, curadoria de serviços psicológicos e interface com liderança para redesenho de processos. Diferente do EAP tradicional: foco em prevenção sistêmica, não em atendimento individual reativo.
Lacuna racial: Primeiros CMOs nomeados no Brasil em 2025 são brancos. Profissionais negros com formação em neuropsicologia e experiência corporativa seguem sub-representados — paradoxo direto, dado que são os grupos que mais acumulam carga de estresse institucional.