Caderno: Saber
Tipo: reportagem
Semana: 24
Data: domingo, 15 de junho de 2025

Junho Verde — saúde do homem negro

Por: Nádia Ferreira
Câncer de próstata, HIV, hipertensão. Os dados do SUS em 2025. Campanhas bem-sucedidas.

Análise

O Junho Verde chegou a 2025 com um dado que não deveria surpreender ninguém, mas que ainda encontra resistência para ser dito com clareza: homens negros morrem de câncer de próstata em proporção duas vezes maior que homens brancos no Brasil, e chegam ao diagnóstico, em média, três anos mais tarde. Esses três anos fazem toda a diferença entre um tumor localizado, tratável com cirurgia ambulatorial, e uma doença metastática que exige quimioterapia. Os dados são do Inca, atualizados em março de 2025, e não são novidade — mas a distância entre o dado publicado e a política pública que muda o acesso ao exame continua sendo o nó central da saúde do homem negro no SUS.

A campanha de junho deste ano avançou em relação a 2024 em dois aspectos concretos. Primeiro, o Ministério da Saúde ampliou os mutirões de PSA — antígeno prostático específico — para 48 municípios de referência regional, contra 31 no ano anterior. Segundo, e mais relevante, o protocolo de abordagem ativa foi adotado em 12 Unidades Básicas de Saúde em Salvador, Fortaleza e Belém: agentes comunitários saem à busca de homens entre 45 e 65 anos que não compareceram a consultas de rotina nos últimos 18 meses. Marcus, 52, operário da construção civil em Fortaleza, foi abordado por uma agente de saúde em frente à obra onde trabalhava. O PSA revelou valor elevado; a biópsia confirmou adenocarcinoma localizado. Operado em maio, com alta hospitalar em dois dias. Sem a abordagem ativa, ele teria chegado ao serviço — se chegasse — dois ou três anos depois.

Além da próstata, o Junho Verde de 2025 focou em hipertensão e HIV. Os números de hipertensão entre homens negros de 30 a 50 anos seguem alarmantes: 43% dos hipertensos nessa faixa etária e raça não sabem que têm a doença, segundo a PNS 2023 divulgada pelo IBGE. O problema não é apenas o acesso ao serviço — é a invisibilidade do sintoma. A hipertensão não dói. Ela age silenciosamente até o AVC ou o infarto, e esses eventos chegam em média sete anos mais cedo em homens negros do que em homens brancos, segundo o estudo ELSA-Brasil publicado em 2024.

No HIV, o dado mais relevante de 2025 é o crescimento de 14% nos casos entre homens negros heterossexuais acima de 40 anos no Nordeste — um recorte que escapa ao imaginário da prevenção, ainda muito centrado em populações jovens e HSH. As campanhas que funcionam nesse segmento têm uma característica em comum: usam agentes de saúde do mesmo grupo, falam sobre masculinidade sem infantilizar e não partem do pressuposto de que o homem sabe o que é o SUS e como acessá-lo.

Junho Verde ainda não tem a capilaridade do Outubro Rosa nem do Novembro Azul. Mas em 2025 os números mostram que a abordagem ativa — ir até o homem, não esperar que ele venha — funciona onde é implementada.

Contexto

Câncer de próstata: Taxa de mortalidade em homens negros é 2x maior que em brancos (Inca, 2025). Diagnóstico chega em média 3 anos mais tarde. Mutirões de PSA ampliados para 48 municípios de referência em junho de 2025, contra 31 em 2024.

Hipertensão: 43% dos homens negros hipertensos entre 30 e 50 anos desconhecem o diagnóstico (PNS 2023/IBGE). Eventos cardiovasculares chegam 7 anos mais cedo em homens negros que em brancos, segundo o estudo ELSA-Brasil (2024).

HIV: Crescimento de 14% nos casos entre homens negros heterossexuais acima de 40 anos no Nordeste em 2024–2025. Campanhas com agentes comunitários do mesmo grupo mostram maior adesão à testagem e ao acompanhamento no protocolo PrEP.

Abordagem ativa: Protocolo de busca ativa em 12 UBS de Salvador, Fortaleza e Belém — agentes comunitários localizam homens sem consulta de rotina nos últimos 18 meses. Modelo piloto com resultados preliminares positivos; avaliação prevista para setembro de 2025.