Caderno: Saber
Tipo: reportagem
Semana: 21
Data: domingo, 25 de maio de 2025

Doutorado em 2025 — o funil do pesquisador negro

Por: Henrique Araújo
Dados da Capes. Onde a desistência pesa mais. Três trajetórias em USP, UFBA, UFRJ.

Análise

O funil do pesquisador negro no doutorado brasileiro tem uma característica que os dados agregados escondem: ele não afunila de forma uniforme. Há um ponto de ruptura específico — o segundo ano do doutorado, após a qualificação — onde a desistência de estudantes negros é 2,3 vezes maior do que a de brancos na mesma fase. Não é o vestibular, não é a entrada no programa. É o momento em que o apoio estrutural diminui, a pressão de publicação aumenta e a renda da bolsa começa a não cobrir a vida real.

Dados da Capes de 2024 mostram que estudantes negros representam 18% dos ingressantes no doutorado em programas com nota 5 ou superior — uma conquista real, produto das cotas e de uma geração que veio pela universidade pública. Mas representam apenas 11% dos titulados nesses mesmos programas. Sete pontos percentuais desaparecem no caminho. Num sistema que forma cerca de 24.000 doutores por ano, isso é aproximadamente 1.700 pesquisadores negros que saem sem concluir.

As trajetórias que acompanhei em USP, UFBA e UFRJ entre março e maio de 2025 mostram variações sobre o mesmo tema. Na USP, Fabiano, 33, doutorando em sociologia, chegou com bolsa FAPESP e saiu dela no terceiro ano quando o projeto mudou de escopo — a renovação não foi aprovada por questões burocráticas que um orientador mais experiente no sistema teria resolvido antes que se tornassem problema. Na UFBA, Juliana, 30, doutoranda em saúde coletiva, mantém a bolsa mas vive a 40 quilômetros do campus, em Camaçari, porque não encontrou moradia estudantil disponível. O deslocamento diário come três horas do dia que deveriam ser de pesquisa. Na UFRJ, Marcus, 35, está no quinto ano — um a mais do que o prazo — porque precisou trabalhar como professor substituto para complementar renda, e o trabalho atrasou a coleta de dados. Ele termina em agosto, se tudo correr bem.

O que diferencia os que terminam não é exclusivamente capacidade ou resiliência individual. É rede. Quem tem orientador presente, quem pertence a laboratório com financiamento, quem tem família que pode absorver eventuais períodos sem bolsa — esses concluem. Quem não tem essas estruturas de apoio depende de construir uma rede do zero, num ambiente que raramente foi pensado para recebê-los. As universidades melhoraram a entrada; não melhoraram a permanência na mesma proporção.

A política de permanência existe no papel — auxílio moradia, restaurante universitário, apoio psicológico — mas a cobertura é insuficiente e a distribuição é frequentemente opaca. Na UFRJ, o auxílio moradia para pós-graduandos atende 180 estudantes numa universidade com 3.400 doutorandos. O critério de seleção prioriza renda, mas não incorpora recorte racial explícito. O resultado é que a disputa pelo benefício é travada entre pobres de diversas origens, e os negros não ganham automaticamente por serem negros — ganham se tiverem tempo e informação para navegar o sistema de solicitação. Muitos não têm.

Contexto

Dados Capes 2024: Negros (pretos e pardos) representam 18% dos ingressantes em doutorados de programas nota 5+ e 11% dos titulados nesses programas. A taxa de desistência após qualificação é 2,3 vezes maior para estudantes negros. Dados do Geocapes, relatório anual 2024.

Bolsas e valores: A bolsa de doutorado da Capes em 2025 é de R$ 2.400 mensais. O salário mínimo nacional é R$ 1.518. O aluguel médio em bairros próximos à USP (Butantã/Pinheiros) é de R$ 1.700 para quarto simples. A combinação torna a permanência em São Paulo financeiramente inviável sem renda complementar ou apoio familiar.

Moradia estudantil: Das cinco maiores federais (USP, UNICAMP, UFMG, UFRJ, UFBA), apenas a UFBA possui política de moradia com recorte racial explícito para pós-graduação. As demais usam critério de renda familiar per capita abaixo de 1,5 salário mínimo.