Análise
Em março de 2025, o CNPq abriu 14 editais simultâneos com envelope global de R$ 320 milhões — número que parece robusto até você confrontar com a inflação acumulada desde 2019 e perceber que o poder de compra real encolheu 31%. A Capes, por sua vez, manteve o pagamento das bolsas de pós-graduação em dia, mas cortou silenciosamente 1.200 projetos de pesquisa em chamadas temáticas. Esses dois movimentos contam histórias opostas para audiências diferentes: o governo anuncia cifras; os laboratórios enxugam equipes.
O impacto sobre pesquisadores negros no mestrado e no doutorado não é distribuído de forma aleatória. Dados compilados pela Associação Nacional de Pós-Graduandos indicam que estudantes cotistas — maioria negra — concentram-se em áreas como ciências sociais, saúde coletiva e educação, exatamente as que sofreram cortes proporcionalmente maiores nos editais temáticos de 2025. Um doutorando em saúde coletiva na UFBA, Rodrigo, 29, viu seu projeto sobre hipertensão em homens negros perder a bolsa de iniciação científica vinculada em fevereiro. O orientador absorveu o custo com reservas próprias. Não é solução — é gambiarra.
O mecanismo é conhecido, mas raramente nomeado com precisão: a distribuição de recursos científicos replica a estratificação racial do mercado de trabalho. Pesquisadores negros chegam ao doutorado com menor capital acumulado — menos publicações em periódicos qualificados, menos redes internacionais, menos participação em projetos anteriores que geram o histórico necessário para pontuações Lattes competitivas. Quando o orçamento aperta, os critérios formais de mérito funcionam como filtros que eliminam sistematicamente quem foi excluído das etapas anteriores.
A Capes apresentou em abril o Edital Pesquisa Aplicada em Ciências Humanas com recorte explícito de diversidade, reservando 30% das bolsas para pesquisadores autodeclarados pretos ou pardos. É o primeiro edital da agência com essa cláusula. O resultado prático ainda é incerto — os projetos aprovados serão divulgados em julho — mas o mecanismo existe. O problema é que editais com recorte de diversidade representam, em 2025, menos de 8% do volume total de chamadas abertas pelo sistema federal.
Há uma ironia operacional nesse cenário: o Brasil forma cada vez mais doutores negros — a proporção subiu de 4,2% para 11,7% entre 2012 e 2023, segundo a Capes — mas o mercado de absorção científica, composto de vagas em universidades e centros de pesquisa, não cresceu no mesmo ritmo. O resultado é uma geração de pesquisadores altamente qualificados que competem por recursos escassos em condições estruturalmente desiguais. Cortar bolsas e projetos nesse contexto não é contingência fiscal neutra. É escolha com destinatário.
A saída não é apenas pressionar por mais verbas. É pressionar por editais que reconheçam o ponto de partida desigual e construam critérios de mérito que não confundam trajetória limitada com capacidade limitada. O CNPq tem instrumentos para isso — o edital de diversidade da Capes prova que o mecanismo existe. O que falta é escala e vontade de aplicá-lo ao grosso das chamadas, não a 8% delas.
Contexto
Orçamento federal 2025: O CNPq executou R$ 1,1 bilhão em 2024; a proposta aprovada para 2025 manteve o nominal com corte real estimado em 8% pela Finep. A Capes executou R$ 5,4 bilhões em 2024, sustentada sobretudo pela folha de bolsas.
Editais afetados: Chamadas temáticas em saúde coletiva, ciências sociais e educação tiveram contingenciamento médio de 22% nos valores aprovados versus os solicitados. Dados do Observatório da Ciência Brasileira, março de 2025.
Diversidade na pós: Em 2023 (dado mais recente da Capes), 11,7% dos doutores titulados eram pretos ou pardos. Na área de ciências da saúde — onde pesquisa sobre população negra se concentra —, a taxa cai para 8,4%. O Edital Diversidade de abril de 2025 é o primeiro instrumento sistêmico de correção.