Análise
No primeiro trimestre de 2025, ao menos quatorze plataformas de IA — entre tutores adaptativos, corretores automáticos e assistentes de redação — estavam sendo usadas em escolas de Ensino Médio no Brasil, com financiamento dividido entre MEC, secretarias estaduais e mensalidades do setor privado. O mapa é fragmentado, a supervisão é irregular, e a pergunta que ninguém responde com precisão é: onde está o professor nesse circuito?
A apuração visitou escolas em três redes distintas. Na rede federal — Institutos Federais e Colégio Pedro II —, a adoção de ferramentas de IA foi lenta e passou por deliberações de conselho, com supervisão documentada e treinamento de professores. Em São Paulo, a rede estadual adotou, desde 2024, a plataforma Hora do ENEM com módulo de correção automatizada de redação por IA, sem formação específica para os docentes que deveriam interpretar os feedbacks gerados. No setor privado de classe média, as plataformas proliferam sem padrão: uma escola no Ipiranga usa três ferramentas distintas com sobreposição de função.
O aluno mais vulnerável nesse cenário é o que depende exclusivamente da escola pública estadual, que tem menor capacidade de filtrar fornecedores e menor investimento em formação docente continuada. Na prática, o menino negro da periferia de São Paulo pode ter seu desempenho em redação avaliado por um sistema que foi treinado predominantemente em textos de vestibulandos do Sudeste com alta escolaridade familiar — sem que ele ou o professor saibam. Quando o tutor adaptativo de matemática diz que "o aluno está abaixo do esperado", o "esperado" é de quem?
A supervisão humana firme, neste contexto, não é opcional — é condição para que a ferramenta funcione com responsabilidade. Os IFs que documentaram o processo mostraram um caminho: professor define o objetivo pedagógico, IA oferece recurso, professor interpreta resultado e toma decisão. O estudante permanece como sujeito, não como perfil a ser otimizado. Nos casos de adoção acrítica — e encontramos pelo menos quatro nas visitas —, a inversão acontece: a plataforma define o ritmo, o professor valida a plataforma, o aluno segue o fluxo.
O MEC, consultado, informou que elabora diretrizes para uso de IA em educação básica com previsão de publicação no segundo semestre de 2025. Enquanto isso não existe, a decisão fica com o gestor local, que frequentemente não tem formação técnica nem tempo para avaliá-la. O professor de português da escola estadual não sabe como o modelo de correção foi treinado nem quem definiu os critérios de proficiência. A lacuna regulatória é real. E o custo dela — como quase sempre — recai de forma desproporcional sobre os alunos que menos têm margem para absorver erros do sistema.
Contexto
Plataformas identificadas: Hora do ENEM (Governo SP), Leitura Lab (privada, presente em seis estados), Khan Academy com módulo IA (parceria MEC desde 2023), Redação Online (privada, usada em redes conveniadas). Quatorze plataformas com IA ativa mapeadas entre janeiro e março de 2025.
Visitas realizadas: IFSP campus São Paulo; Escola Estadual Prof. Linneu Prestes (Ipiranga, SP); Colégio particular em Recife (solicitou não ser identificado). Entrevistas com professores, coordenadores e, em dois casos, alunos do 3º ano.
Regulação vigente: Resolução CNE/CEB nº 2/2023 menciona competências digitais na BNCC, sem especificar IA. MEC anunciou grupo de trabalho em fevereiro de 2025 com previsão de diretrizes no 2º semestre. LGPD aplica-se ao tratamento de dados de menores, mas sem especificidade para contexto educacional com IA.
Número central: Segundo levantamento do CETIC.br (2024), 67% dos professores de Ensino Médio público nunca receberam formação específica sobre uso de tecnologias digitais em sala.