Caderno: Saber
Tipo: ensaio
Semana: 13
Data: domingo, 23 de março de 2025

Burnout executivo 2025 — um retrato clínico

Por: Gérson Neto
Dez casos de executivos negros em altura de carreira. Sinais, tratamento, prevenção. Protocolo.

Análise

Acompanhei, entre 2023 e 2025, dez executivos negros em diferentes momentos de colapso ocupacional. Não eram pessoas frágeis — eram pessoas que chegaram a diretorias, a vice-presidências, a assentos em conselhos, carregando simultaneamente o peso do cargo e o peso de serem, naquele ambiente, a exceção. Burnout, nesses casos, não é esgotamento genérico. É um esgotamento com camadas específicas que a literatura clínica mainstream ainda subestima.

O quadro clínico que repito nessas histórias tem três pilares. O primeiro é a carga cognitiva do código-switching permanente — a alternância entre o registro cultural de origem e o registro corporativo majoritariamente branco que o ambiente exige. Pesquisas recentes em neurociência cognitiva, incluindo um estudo da Universidade de Vanderbilt publicado em 2024, indicam que o esforço contínuo de autorregulação identitária compromete os recursos do córtex pré-frontal que seriam alocados para tomada de decisão executiva. Em termos simples: parte da energia que deveria ir para o trabalho vai para o esforço de pertencer a um lugar que não foi construído para você.

O segundo pilar é o isolamento estrutural. Dos dez casos que acompanhei, oito relataram ser o único negro em reuniões de liderança por períodos superiores a dois anos. O isolamento não é apenas emocional — é epistêmico. Sem interlocutores que compartilhem a experiência racial, a interpretação de episódios de racismo institucional fica sem ancoragem coletiva. O indivíduo oscila entre a certeza de que algo aconteceu e a dúvida instalada pelo ambiente de que ele está exagerando. Essa oscilação é exaustiva.

O terceiro pilar é o que chamo de hipervigília reputacional. O executivo negro sabe, com frequência sem poder nomear, que o padrão de avaliação que recai sobre ele é mais rígido. Um erro que seria tolerado num par branco pode custar a posição. Esse saber produz um estado de monitoramento permanente — das próprias falas, das reações alheias, do próprio corpo na sala. A hipervigília crônica ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal de forma sustentada, elevando cortisol basal e comprometendo memória de trabalho, sono e regulação emocional.

O protocolo que proponho a partir desses dez casos não é revolucionário, mas é específico. Começa pelo reconhecimento diagnóstico: burnout em executivo negro requer anamnese que inclua raça, e não apenas carga de trabalho e horas de sono. Inclui psicoterapia com profissional que conheça a literatura sobre racismo como estressor crônico — no Brasil, ainda escassa, mas crescente. E passa por intervenções organizacionais: mentoria estruturada com pares negros seniores, revisão dos critérios de avaliação de desempenho por RH com supervisão externa. A saúde do executivo negro não se resolve no consultório se a empresa não muda.

Contexto

Amostra clínica: Dez casos acompanhados entre 2023 e 2025, todos executivos negros com cargos de diretoria ou acima em empresas privadas de médio e grande porte nos setores financeiro, tecnologia e varejo. Oito em São Paulo, um em Belo Horizonte, um no Recife.

Base científica: Estudo de code-switching e carga cognitiva: Vanderbilt University, publicado em Journal of Experimental Psychology (2024). Eixo HPA e estresse racial crônico: revisão de Sherman et al. em Psychoneuroendocrinology (2023). No Brasil, pesquisa sobre burnout e raça ainda é incipiente — o grupo de Cláudia Bandeira (USP) tem publicações desde 2022.

Diagnóstico e CID: Burnout classifica-se como Z73.0 no CID-11 ("esgotamento"), mas sem subdivisão por contexto racial. A ausência de categoria específica dificulta o reconhecimento institucional e o afastamento médico adequado.

Protocolo: Anamnese com marcador de raça; psicoterapia com profissional treinado em racismo como trauma cumulativo; mentoria peer-to-peer entre executivos negros; auditoria externa dos critérios de avaliação.