Análise
Em 14 de março de 2025, sete anos depois do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, o luto coletivo voltou às ruas do Rio de Janeiro, de Salvador, de Belém. Marielle foi vereadora, mulher negra, periférica, militante — e foi morta por isso. O que a psicologia social sabe sobre o que acontece quando um crime político assim permanece sete anos sem uma resposta judicial plena é menos linear do que a narrativa pública costuma admitir. Luto não resolvido não é o mesmo que luto suspenso. É luto ativo, com custo neurobiológico e psíquico contínuo.
A psicologia do trauma político distingue o luto individual do luto coletivo, mas ambos partilham o mesmo substrato: a necessidade de sentido. Quando a morte é compreensível — por mais dolorosa que seja —, o processo de elaboração pode seguir seu curso. Quando a morte é política, violenta e sem responsabilização, esse processo é interrompido antes de começar. George Bonanno, pesquisador da Columbia que estuda resiliência em contextos de perda traumática, chama isso de trauma cumulativo por injustiça: cada data sem resolução reativa a ferida, impedindo que o aparelho psíquico desenvolva a distância necessária para a elaboração.
Para as comunidades negras brasileiras, o assassinato de Marielle não foi apenas a perda de uma liderança. Foi a confirmação de uma hipótese que muitos vivem no corpo: a de que o Estado pode matar e não responder por isso. Pesquisa realizada pelo Grupo de Estudo de Trauma Político da PUC-Rio, publicada em fevereiro de 2025, entrevistou 180 militantes negros de base no Rio de Janeiro e encontrou que 67% relataram sintomas de estresse pós-traumático recorrentes em torno da data de 14 de março. O pico de procura por atendimento psicológico em Centros de Referência em Direitos Humanos do estado ocorreu na semana anterior ao aniversário.
Luto e memória são processos que a neurociência começa a mapear com mais precisão. O hipocampo e a amígdala participam da consolidação de memórias com carga emocional intensa — e memórias traumáticas tendem a ser acessadas de forma intrusiva, fora do controle voluntário, especialmente em contextos de reativação (datas, imagens, notícias). O luto político tem a particularidade de manter essa reativação acesa de forma estrutural: a cada depoimento no tribunal, a cada foto de Marielle nas redes, a cada discurso da irmã Anielle Franco no Ministério da Igualdade Racial, o sistema de memória emocional é ativado.
Tratar esse luto como saúde não é instrumentalizar a dor — é reconhecer que comunidades inteiras estão adoecendo de forma mensurável. A memória de Marielle como prática de saúde coletiva — rituais de 14 de março, rodas de conversa, produção cultural — não é apenas política: é intervenção em saúde mental comunitária, com evidência que a psicologia social vem construindo desde os estudos sobre luto nas ditaduras latino-americanas. Nomear isso clinicamente é o primeiro passo para que o sistema de saúde responda.
Contexto
Sete anos (mar. 2025): Em 14 de março de 2025, atos públicos ocorreram em ao menos 12 capitais brasileiras. O julgamento do mandante do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, após condenação do executor Élcio Queiroz em 2024, prosseguia em fase de instrução no STJ.
Pesquisa PUC-Rio (fev. 2025): Grupo de Estudo de Trauma Político entrevistou 180 militantes negros de base no Rio de Janeiro: 67% relataram sintomas de estresse pós-traumático recorrentes em torno do dia 14 de março, com pico de demanda por atendimento psicológico nos Centros de Referência em Direitos Humanos na semana anterior ao aniversário.
Luto político e saúde mental: Comissões da verdade na Argentina, Chile e África do Sul documentam que não-responsabilização judicial prolonga luto coletivo e eleva depressão e ansiedade em comunidades afetadas.
Política pública: O Ministério da Igualdade Racial incluiu no relatório de 2024 programas de saúde mental para comunidades negras afetadas por violência de Estado — reconhecimento institucional inédito dessa relação.