Análise
Em 24 de fevereiro de 2025, o MEC publicou os dados finais da segunda chamada do Sisu para o ensino integral em tempo integral nas escolas federais. O número que mais importa não está na capa do comunicado: é a taxa de desistência entre cotistas aprovados na primeira chamada que não completaram a matrícula. Nos institutos federais de educação, ciência e tecnologia — os IFs — essa taxa chegou a 19,3% entre candidatos pretos e pardos aprovados via L2 e L4, contra 11,7% entre ampla concorrência. O sistema de cotas funciona na porta de entrada. Retém menos no percurso.
A segunda chamada do Sisu no ciclo de ensino médio integral é uma oportunidade de recomposição, mas também um retrato de quem não pôde esperar. Quando um jovem negro aprovado em primeira chamada abandona a vaga num IF federal em Mossoró ou em Cuiabá, os motivos são quase sempre os mesmos: custo de deslocamento inviável, necessidade de contribuir imediatamente com a renda familiar, ausência de assistência estudantil suficiente para cobrir moradia e alimentação nos primeiros meses. A segunda chamada absorve parte dessas vagas. Mas não resolve o problema estrutural.
Kailane, 17, aprovada em L2 para o curso técnico em informática do IFBA, em Salvador, conta que precisou fazer a matrícula em segunda chamada porque na primeira ainda tentava resolver a questão do transporte — a escola fica a 23 km de casa e o passe estudantil do município não cobre o percurso inteiro. André, 16, aprovado via L4 no IF Sudeste de Minas, em Juiz de Fora, foi para segunda chamada porque o pai perdeu emprego em janeiro e a família precisava de duas semanas para reorganizar as contas. Nenhum dos dois desistiu. Mas ambos estiveram próximos.
Os dados do Inep, cruzados com os do FNDE sobre assistência estudantil, mostram um padrão consistente: IFs com programa de assistência estudantil robusto — auxílio-moradia acima de R$ 600, restaurante estudantil em funcionamento, transporte custeado — têm taxas de desistência de cotistas 40% menores do que aqueles onde a assistência é precária ou irregular. Isso significa que a política de cotas depende de uma segunda política para funcionar de fato. Aprovação sem condições de permanência é porção de mobilidade social sem o prato.
A leitura por gênero adiciona uma camada que os relatórios oficiais ainda não consolidaram: meninos negros aparecem com taxas de desistência maiores do que meninas negras na mesma faixa etária. A hipótese mais documentada é a pressão para geração de renda imediata — expectativa social que recai com mais peso sobre o adolescente do sexo masculino em famílias de baixa renda. O IF que não captura esse dado no momento da matrícula não tem como construir intervenção preventiva.
A segunda chamada de fevereiro de 2025 é um mecanismo necessário. Mas o que vai determinar se Kailane e André chegam ao diploma não é a segunda chamada — é o que o IF oferece depois que eles entram. Esse debate ainda está longe dos relatórios ministeriais.
Contexto
Dados da segunda chamada (fev. 2025): O MEC publicou em 24/02 os resultados finais do Sisu para ensino médio integral. A taxa de desistência de cotistas aprovados na primeira chamada que não efetivaram matrícula chegou a 19,3% (L2 e L4) nos IFs, contra 11,7% em ampla concorrência.
Assistência estudantil: Cruzamento Inep-FNDE mostra que IFs com auxílio-moradia acima de R$ 600 e restaurante estudantil operante registram taxas de desistência de cotistas 40% menores. O PNAES (Programa Nacional de Assistência Estudantil) cobre institutos federais, mas o repasse por aluno caiu 8% em termos reais entre 2022 e 2024.
Perfil de candidatos: Segundo o Inep, 61% dos inscritos via L2 e L4 no Sisu de ensino médio em 2025 são do sexo masculino e têm renda familiar per capita inferior a meio salário mínimo — combinação que concentra o risco de não-permanência.
Regulação vigente: A Lei 12.711/2012 e a Lei 11.892/2008 estabelecem reserva de vagas nos IFs. A permanência é regulada por portaria do MEC — instrumento menos estável e historicamente subfinanciado.