Caderno: Saber
Tipo: reportagem
Semana: 8
Data: domingo, 16 de fevereiro de 2025

Bruxismo e estresse racial — o que a odontologia e a psicologia dizem

Por: Gérson Neto
Apuração em consultórios. Dados sobre ranger de dentes, dor de cabeça, fadiga. O racismo como estressor crônico.

Análise

O relato é recorrente em consultórios de odontologia e psicologia de São Paulo a Belém: o homem negro que acorda com dor na mandíbula, dor de cabeça e sensação de que não descansou. Bruxismo — ranger e apertar os dentes durante o sono ou a vigília — afeta entre 8% e 31% da população adulta brasileira, segundo o levantamento nacional publicado em dezembro de 2024 pela Associação Brasileira de Odontologia. Mas a distribuição não é neutra. Em consultórios que atendem majoritariamente homens negros em ocupações de alta pressão — segurança, logística, construção, gestão em empresas onde são minoria — os dentistas reportam prevalência consistentemente acima da média.

O mecanismo é direto: estresse crônico eleva cortisol e ativa o sistema nervoso simpático, aumentando tensão muscular, inclusive nos músculos mastigatórios. O bruxismo noturno é uma das expressões somáticas mais documentadas dessa ativação persistente. Em 2024, pesquisadores da UFMG publicaram no Brazilian Oral Research dados de 312 pacientes em Belo Horizonte: a combinação de estresse ocupacional, percepção de discriminação racial e insegurança financeira foi o preditor mais robusto de bruxismo severo — mais forte do que tabagismo ou consumo de álcool, variáveis clássicas.

Cleidson, 39, técnico de infraestrutura em Manaus, descreve a progressão com precisão: as dores de cabeça matinais começaram em 2022, quando foi promovido a gestor de equipe e tornou-se o único negro na linha gerencial da empresa. A placa de mordida foi prescrita pelo dentista. A psicóloga que ele procurou meses depois foi quem nomeou o quadro com mais completude — ansiedade de performance racialmente condicionada, gerando ativação do sistema nervoso autônomo que não cessava nem no sono. Dois tratamentos simultâneos, nenhum suficiente sozinho.

A odontologia e a psicologia chegam ao diagnóstico por caminhos distintos e ainda raramente se falam de forma sistemática. O dentista vê desgaste dentário, dor na ATM (articulação temporomandibular), cefaleia. O psicólogo vê ansiedade, hipervigilância, sono não-reparador. O racismo como estressor crônico — conceito consolidado na literatura de saúde pública desde os anos 1990, com contribuições centrais de pesquisadores como David Williams e, no Brasil, de Edna Maria Vissoci Reiche — aparece entre as hipóteses do psicólogo e quase nunca na ficha odontológica. Essa dissociação tem custo clínico.

O protocolo integrado que começa a aparecer em clínicas de saúde do trabalhador em 2025 combina placa de mordida, psicoterapia focada no estresse e, quando indicado, biofeedback de tensão muscular. Para o homem negro em posição de exposição racial cotidiana, o tratamento que ignora o estressor ambiental trata o sintoma e deixa a fonte intacta. Nomear o racismo como dado clínico não é militância — é precisão diagnóstica.

Contexto

Prevalência no Brasil: A Associação Brasileira de Odontologia (dez. 2024) estima bruxismo em 8%–31% dos adultos, com maior incidência em alta pressão ocupacional. Dado desagregado por raça inexiste — lacuna classificada como prioritária pela Fiocruz em janeiro de 2025.

Estudo UFMG (2024): Pesquisa com 312 pacientes em BH, no Brazilian Oral Research, identificou estresse ocupacional, discriminação racial percebida e insegurança financeira como preditor mais robusto de bruxismo severo — acima de tabagismo e álcool.

Racismo como estressor crônico: Literatura de Williams (Harvard) e Krieger (Harvard SPH) demonstra impacto do racismo cotidiano sobre marcadores fisiológicos de estresse. Grupos da UFBA e UFSCar publicaram em 2024 revisões sobre discriminação racial e distúrbios do sono em homens negros brasileiros.

Protocolo integrado: O Centro de Saúde do Trabalhador de Santo André (SP) lançou em fevereiro de 2025 protocolo conjunto odontologia-psicologia para bruxismo em segurança privada — setor com 72% de trabalhadores negros (FENAVIST).