Análise
Em fevereiro de 2025, o consultório de um psicólogo em Salvador já recebe dados antes do paciente entrar na sala. Uma plataforma de triagem alimentada por processamento de linguagem natural analisa o formulário de anamnese, sinaliza risco de ideação suicida e sugere instrumentos diagnósticos. O psicólogo lê o relatório, concorda em parte, descarta outra, e começa a sessão. Isso é o human-in-the-loop em operação clínica — e a discussão relevante para 2025 não é se a IA deve estar no consultório, mas como garantir que o humano permaneça no centro do circuito de decisão.
As ferramentas que chegaram à clínica psicológica brasileira em 2025 dividem-se em três categorias. A primeira é triagem e risco: plataformas como Psicometria Online e Conexa Saúde integram algoritmos que cruzam respostas de escalas validadas — PHQ-9, GAD-7, PCL-5 — com padrões de alerta previamente calibrados. A segunda é apoio ao prontuário: sistemas de transcrição automática de sessões (com consentimento explícito) e sugestão de diagnóstico diferencial por CID-11. A terceira é psicoeducação entre sessões: chatbots terapeuticamente alinhados a protocolos de TCC que o paciente acessa nos dias sem atendimento. Em todas as três, o protocolo ético exige que a decisão clínica permaneça com o profissional humano.
O ponto de tensão mais agudo é o abismo entre a exigência formal e a prática: human-in-the-loop no protocolo, delegação silenciosa no cotidiano. Quando um sistema emite alertas vermelhos para 40% dos pacientes e o clínico concorda com 70% deles, a tendência é aceitar os demais como default — o que pesquisadores chamam de automation complacency. No CAPS, com doze atendimentos por turno, esse risco é estrutural, não exceção.
Para o paciente negro, soma-se viés de dados. Algoritmos treinados em populações majoritariamente brancas podem subperceber depressão que se manifesta em homens negros brasileiros por somatização e irritabilidade — não pelos critérios canônicos de tristeza. Rafael, 36, analista de TI em Fortaleza, foi triado como baixo risco em outubro de 2024, três semanas antes de uma crise com internação. O sistema criou zona de conforto falsa. Human-in-the-loop não é procedimento — é cultura clínica a ser ativamente sustentada.
O CFP publicou em janeiro de 2025 resolução complementar à Resolução 11/2018: toda ferramenta de IA em contexto clínico deve ser auditável pelo profissional responsável, e o consentimento informado precisa discriminar o uso de sistemas automatizados. A resolução não proíbe — regula. Regulação é o único caminho que impede que eficiência vire negligência.
O psicólogo humano continua central em 2025 por limitação técnica e imperativo ético simultâneos. A aliança terapêutica — o vínculo que prediz desfecho em quase todos os modelos de eficácia — não é replicável por LLM. O sistema organiza informação, sugere hipóteses, reduz carga administrativa. Mas nomear o que o paciente sente, quando silenciar, quando confrontar: isso continua sendo decisão do humano treinado para isso.
Contexto
Resolução CFP jan. 2025: O Conselho Federal de Psicologia publicou norma exigindo auditabilidade de ferramentas de IA em contexto clínico e consentimento informado discriminado para uso de sistemas automatizados em todas as etapas do atendimento.
Plataformas em operação: Conexa Saúde e Psicometria Online operam em mais de 1.200 clínicas e empresas no Brasil. A Conexa reportou em fevereiro de 2025 crescimento de 34% no uso de triagem automatizada em programas de saúde corporativa — segmento onde o subdiagnóstico em homens negros é mais documentado.
Viés nos dados de treino: Levantamento em The Lancet Digital Health (dez. 2024) mostrou que 78% dos datasets usados para treinar algoritmos de triagem psiquiátrica em português tinham menos de 15% de indivíduos pretos ou pardos.
Carga no SUS: DATASUS 2024 registra média de 11,4 atendimentos por turno em CAPS de capital — contexto em que supervisão humana sobre IA enfrenta os maiores riscos de colapso prático.