Análise
Em janeiro de 2025 percorri três Centros de Atenção Psicossocial — em Belém, Fortaleza e Salvador — para entender o que o SUS entrega, de fato, em saúde mental. O que encontrei não foi colapso nem excelência. Foi algo mais preciso e mais angustiante: uma rede funcionando muito abaixo do que poderia, com profissionais competentes presos em estruturas que os obrigam a triagem permanente em vez de cuidado.
O CAPS de Belém que visitei no bairro do Jurunas atende, em média, 340 usuários por mês. Tem dois psiquiatras, um psicólogo e dois técnicos de enfermagem para o turno da manhã. A fila para primeira consulta psiquiátrica está em 67 dias. O gerente da unidade, Rodrigo, 42, explicou com a precisão de quem repete o mesmo número há meses: \'Não é espera. É exclusão com prazo.\' Quando a crise não espera 67 dias — e crise raramente espera — o usuário vai para a UPA, que não tem estrutura para saúde mental, ou resolve na rua.
Em Fortaleza, o CAPS II do Pirambu tem uma particularidade que me interessa clinicamente: desde 2023, a equipe implantou grupos de escuta específicos para homens. A adesão foi baixa no primeiro semestre — sete participantes na média. No segundo semestre de 2024, após mudança de horário para as 18h e parceria com uma barbearia do bairro para divulgação, subiu para 23. O dado parece modesto. Para quem trabalha com saúde mental masculina, é expressivo: mais do que triplicou com uma única mudança logística e uma âncora cultural de confiança.
O homem negro não procura serviço de saúde mental por razões que se sobrepõem: estigma em relação ao adoecimento psíquico, desconfiança histórica de instituições que historicamente o violentaram, horários incompatíveis com jornada de trabalho informal, e — dado raramente discutido — racismo institucional dentro do próprio CAPS. Em Salvador, um usuário chamado Paulo, 31, técnico de segurança, me relatou que foi recebido na triagem com a hipótese de uso de drogas antes de qualquer avaliação clínica. Saiu sem voltar. Esse padrão não é anedota: pesquisa do CFP publicada em 2023 mostrou que profissionais de saúde mental associam homens negros a transtornos por uso de substâncias em taxas significativamente maiores do que a prevalência real justificaria.
Os medicamentos são outro nó. O desabastecimento de psicofármacos no SUS em 2024 atingiu ansiolíticos e antidepressivos de segunda geração — os mais prescritos em CAPS. Em Belém, a unidade ficou 40 dias sem clonazepam. Em Fortaleza, a substituição de genérico causou reações adversas em três usuários, documentadas em prontuário. Não há escândalo nos noticiários. Há silêncio, que é pior.
O que o CAPS pode ser — e em alguns lugares já é — é uma estrutura de cuidado longitudinal que vai além da consulta. Em Pirambu isso ficou claro: o grupo de homens não é triagem, é pertencimento. Quando o Estado entende que saúde mental é também vínculo, a equação muda. O problema é que esse entendimento depende de equipe motivada, gestão sensível e orçamento suficiente — três variáveis que o SUS não garante de forma sistêmica.
Contexto
Capacidade instalada: CAPS de Belém/Jurunas — 340 atendimentos/mês, dois psiquiatras, fila de 67 dias para primeira consulta (jan. 2025). Dado representativo do gargalo de recursos humanos na rede CAPS nas capitais do Norte e Nordeste.
Grupo de homens/Pirambu (Fortaleza): adesão saltou de 7 para 23 participantes após mudança de horário (18h) e parceria com barbearia local. Evidência de que barreiras de acesso masculino são mais logísticas e culturais do que clínicas.
Racismo institucional: pesquisa CFP (2023) — profissionais associam homens negros a transtornos por uso de substâncias em taxa muito acima da prevalência real. Padrão que afasta o usuário antes do vínculo terapêutico ser estabelecido.
Desabastecimento 2024: CAPS de Belém ficou 40 dias sem clonazepam em dosagem padrão. Substituição de genérico em Fortaleza causou reações adversas documentadas. Impacto maior sobre usuários de baixa renda que não têm acesso à rede privada como alternativa.