Caderno: Saber
Tipo: análise
Semana: 3
Data: domingo, 19 de janeiro de 2025

Censo Escolar 2024 — quem está na escola e quem saiu

Por: Henrique Araújo
Dados do Inep. Evasão no Ensino Médio. Cotas no federal. A leitura por raça.

Análise

O Censo Escolar 2024, divulgado pelo Inep em janeiro de 2025, não é apenas levantamento estatístico. É radiografia de quem o Brasil decidiu manter dentro da escola e quem decidiu deixar escapar. Os números do Ensino Médio confirmam o que educadores de periferia denunciam há uma década: a evasão voltou a subir após dois anos de relativa estabilidade, e o rosto de quem evade continua sendo predominantemente negro, pobre e do interior do Nordeste.

A taxa de abandono no Ensino Médio público chegou a 6,8% em 2024, contra 6,1% em 2023. O dado bruto já seria preocupante. Lido por raça, torna-se urgente: entre estudantes autodeclarados pretos e pardos matriculados no 2º ano do EM em escolas estaduais, a taxa de abandono foi de 9,2% — quase o dobro da média registrada entre estudantes brancos no mesmo segmento (4,9%). O Inep não divulga esse cruzamento na tabela principal; é necessário solicitar o microdado, o que poucos veículos fazem.

Marcos, 16 anos, saiu da escola estadual em Juazeiro do Norte em agosto para trabalhar na construção civil. Seu pai, diagnosticado com hipertensão em 2023, precisou reduzir a jornada. A história não tem nada de excepcional — é o padrão que os dados capturam: a escola pública no Brasil ainda não é capaz de competir com a urgência econômica de uma família que não tem reserva. Quando o pai adoece ou o emprego cai, é o filho adolescente que vai trabalhar. E o filho adolescente negro sai primeiro porque chega primeiro ao mercado informal — e porque a escola raramente deu a ele razão concreta para ficar.

No ensino federal, o cenário é diferente — e a diferença tem nome: cotas. As universidades e os institutos federais que implementaram cotas raciais e socioeconômicas há mais de uma década mostram taxas de retenção superiores às da rede estadual em 18 pontos percentuais, segundo o próprio Inep. Isso não é acidente de amostra. É evidência de que quando o Estado investe em chegada — bolsas, transporte, alimentação, apoio pedagógico — o estudante negro fica. O que falta não é vontade do estudante; é suporte estruturado.

O Novo Ensino Médio, em implantação desde 2022 e em revisão pelo MEC em 2025, é o outro vetor de risco. A flexibilização curricular, pensada como modernização, criou um vácuo nas regiões onde as redes estaduais não têm professores suficientes para oferecer os itinerários formativos prometidos. No Maranhão e no Piauí, estados com as maiores proporções de estudantes negros no Ensino Médio público, mais de 40% das escolas ofereceram em 2024 apenas um itinerário — o que na prática significa nenhuma escolha real. A reforma que prometia personalização entregou precariedade ampliada.

A leitura por raça do Censo Escolar é obrigação jornalística e política. Quando o Inep publica a tabela agregada e os veículos reproduzem sem o cruzamento racial, naturalizam uma média que encobre uma injustiça. O MEC e as secretarias estaduais precisam ser cobrados não apenas pelo número total de matriculados, mas pelo número de quem termina — e por quem termina.

Contexto

Censo Escolar 2024 (Inep/jan. 2025): abandono no EM público subiu de 6,1% (2023) para 6,8% (2024). Microdados mostram taxa de 9,2% entre pretos e pardos no 2º ano do EM estadual, contra 4,9% entre brancos — diferença de 4,3 pontos percentuais não destacada no relatório principal.

Rede federal vs. estadual: institutos e universidades federais com cotas apresentam retenção 18 pontos percentuais superior à média estadual, segundo cruzamento do próprio Inep. Evidência direta do efeito de suporte estruturado (bolsa, alimentação, transporte) na permanência.

Novo Ensino Médio: em Maranhão e Piauí, mais de 40% das escolas estaduais ofereceram apenas um itinerário formativo em 2024 — contra a proposta de múltipla escolha. Revisão pelo MEC em 2025 ainda sem prazo definido para correção nas redes mais precárias.

Perfil da evasão: padrão dominante é masculino, negro, 2º ou 3º ano, saída por inserção no mercado informal — especialmente no Nordeste e Norte. Dado estrutural há pelo menos oito Censos consecutivos.