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Ata de fundação · Sociedade Beneficente Floresta Aurora

Ata de 24 de dezembro de 1872, em Pelotas, Rio Grande do Sul. Mais antiga instituição negra do Brasil em atividade contínua, anterior à Abolição em 16 anos.

Tipo
Ata · Estatuto de sociedade beneficente
Data
24 de dezembro de 1872
Local
Pelotas · Rio Grande do Sul
Fundadores
Manoel Calisto Moreira, Francisco Antônio da Silva, Bento José Sanchotene, entre outros
Condição
Ativa desde a fundação, 152 anos ininterruptos
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Em 24 de dezembro de 1872, na cidade de Pelotas, então um dos maiores entrepostos charqueadores do Império, com economia assentada sobre mão de obra escravizada, um grupo de homens negros livres lavra ata constituindo a Sociedade Beneficente Floresta Aurora. A decisão é tomada dezesseis anos antes da Lei Áurea, num momento em que o Brasil ainda era, formal e institucionalmente, uma sociedade escravista.

A Floresta Aurora é, hoje, a mais antiga instituição negra do Brasil em atividade ininterrupta. Sua sede própria, conquistada em 1913 após quatro décadas de arrecadação em pequenas cotas, é patrimônio histórico tombado e abriga o acervo documental da sociedade, livros de ata, registros de ingresso, atas de bailes, cartas, fotografias, estatutos sucessivos.

Do preâmbulo da ata fundadora (fragmento)

“Reunem-se os abaixo-assinados, cidadãos de cor, com o fim de constituir, nesta cidade de Pelotas, uma associação de socorros mútuos, auxílio funerário e beneficência entre irmãos. A presente sociedade, que se denominará Floresta Aurora, terá por fim amparar o associado enfermo, prover os funerais do associado falecido, cuidar da viúva e dos órfãos, e promover a instrução, o bom costume e a honra entre os de nossa gente.”
“São condições para a admissão: ser homem de bem, ter ocupação conhecida e honrada, concordar com o regulamento e pagar a joia de ingresso. Não se admite diferença entre livres e libertos, uma vez satisfeitas as condições acima.”

Estrutura e atividades

Ao longo de sua história, a Floresta Aurora operou como: (a) seguro mútuo, associados pagavam cotas mensais e recebiam auxílio em caso de doença, morte ou desamparo; (b) fundo funerário, a sociedade garantia enterro digno, com caixão, cortejo e missa; (c) escola, aulas noturnas de alfabetização e aritmética para associados e seus filhos; (d) biblioteca, acervo crescente acessível gratuitamente; (e) salão de bailes, núcleo da vida social e cultural da comunidade negra pelotense, com bailes comemorativos em datas como 13 de maio, 20 de novembro, aniversários da sociedade.

O “circuito” das sociedades negras do Sul

A Floresta Aurora não esteve sozinha. Constituiu, junto com o Clube Cultural Marcílio Dias (Porto Alegre, 1903), o Clube Satélite Prontidão (Porto Alegre, 1932), a Sociedade Beneficente 24 de Agosto (Rio Grande) e dezenas de outras associações, aquilo que a historiadora Liane Susan Muller chamou de circuito, rede de sociabilidade e ascensão econômica da burguesia negra sul-rio-grandense nos séculos XIX e XX.

Esse circuito, pouco estudado pela historiografia do eixo Rio–São Paulo, constitui um dos mais importantes, e mais bem preservados, patrimônios institucionais da história negra brasileira. A Casa recomenda o estudo sistemático desse acervo como tarefa urgente.


Nota editorial: os trechos da ata fundadora e de estatutos subsequentes estão parcialmente reproduzidos em publicações acadêmicas e em material institucional da própria Sociedade Floresta Aurora. A ata original permanece sob guarda da sociedade, em sua sede em Pelotas (Rua Félix da Cunha, 563). Consulta presencial mediante contato prévio.

Fontes e referências