Análise
Três anos de governo Lula — e o balanço não comporta veredicto simples. A economia cresceu 2,8% ao ano, inflação abaixo de 4,5%, desemprego em 7,1% em novembro. A renda dos 40% mais pobres subiu 11% (IBGE). A renda dos trabalhadores negros sem diploma subiu 6%. Essa diferença — entre crescimento agregado e crescimento racialmente distribuído — é a lacuna que Lula não fechou e que seus ministros negros nomeiam com mais franqueza do que o presidente.
Na educação, o governo expandiu cotas para a pós-graduação federal — 48 mil novos ingressantes negros em 2025–2026 — e elevou o percentual de reitores negros de 12% em 2022 para 38% em 2026. O Pronatec foi reorientado para regiões de maioria negra, com 210 novos polos no interior do Nordeste e do Norte. O Plano Nacional de Equidade Educacional, proposto em 2024 com financiamento específico para escolas em territórios de maioria negra, ainda não saiu do papel.
Na saúde, 1.340 UBS foram reativadas em municípios de baixo IDH entre 2023 e 2026. A mortalidade materna de mulheres negras era 3,4 vezes a de mulheres brancas em 2022; caiu para 2,9 vezes em 2025. Redução real, ritmo insuficiente. O ministério reconheceu em novembro que sem componente racial no treinamento das equipes, a desigualdade persiste mesmo quando o acesso melhora.
Em segurança pública está o dado mais resistente do triênio: homicídios de homens negros de 15 a 29 anos cresceram 4% nas regiões metropolitanas do Norte e Nordeste entre 2024 e 2026, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de dezembro de 2026. O Programa Nacional de Redução de Homicídios, lançado em 2024 com orçamento de R$ 780 milhões, chegou a 31 municípios dos 80 previstos. O Ministério da Justiça atribui o atraso à resistência dos governadores. O FBSP é mais direto: sem reforma estrutural das polícias estaduais, nenhum programa federal alcança a raiz.
Na agenda racial, Anielle Franco consolidou o Ministério da Igualdade Racial com dotação de R$ 1,8 bilhão para 2027 e entregou o primeiro Plano Nacional de Enfrentamento ao Racismo Institucional — 214 ações em 18 ministérios. As entrevistas com ministros negros do gabinete em novembro e dezembro convergem num ponto: o governo avançou mais na visibilidade do que no fluxo orçamentário. Márcio Macêdo, secretário-geral da Presidência, ao jornal A Tarde em 28 de novembro: "Representação sem redistribuição é vitrine."
Faltam doze meses para o segundo turno de 2026. O balanço de três anos mostra um governo que abriu portas, nomeou negros, ampliou cotas e criou estruturas. Mostra também que crescimento econômico médio não distribui automaticamente riqueza ao longo da linha de cor. O que Lula entregou é real. O que falta é a parte mais difícil — mudar o fluxo de quem recebe o que o Estado gasta.
Contexto
Economia (2023–2026): Crescimento médio de 2,8% ao ano; inflação abaixo de 4,5%; desemprego em 7,1% (novembro de 2026). Renda dos 40% mais pobres subiu 11%; renda de trabalhadores negros sem diploma subiu 6%. Fonte: IBGE, PNAD Contínua.
Educação e cotas: 48 mil novos ingressantes negros na pós-graduação federal em 2025–2026. Reitores negros em universidades federais: 38% em 2026, ante 12% em 2022. Plano Nacional de Equidade Educacional proposto em 2024 ainda não implementado.
Saúde: 1.340 UBS reativadas em municípios de baixo IDH. Mortalidade materna de mulheres negras passou de 3,4x para 2,9x a de mulheres brancas entre 2022 e 2025. Relatório do ministério (novembro 2026) aponta que sem componente racial explícito, desigualdade persiste.
Segurança e agenda racial: Homicídios de homens negros de 15 a 29 anos cresceram 4% no Norte e Nordeste (2024–2026). Programa Nacional de Redução de Homicídios: 31 dos 80 municípios previstos. Ministério da Igualdade Racial: R$ 1,8 bi em 2027; Plano Nacional de Enfrentamento ao Racismo Institucional com 214 ações em 18 ministérios.