Caderno: Brasil
Tipo: ensaio
Semana: 45
Data: domingo, 8 de novembro de 2026

137 anos da República — o mito e a Constituição

Por: Marcus Andrade
De Deodoro a Lula. O papel dos negros na República. O que a Constituição de 1988 entregou, o que não.

Análise

Em 15 de novembro de 1889, enquanto Deodoro da Fonseca proclamava a República na Praça da Aclamação, os homens negros que sobreviveram à abolição de dezesseis meses antes continuavam trabalhando os mesmos canaviais do Nordeste, as mesmas fazendas de café do interior paulista, as mesmas docas do Recife. A mudança de regime não os convocou. O mito republicano nasceu branco, militar e positivista — e decidiu, desde o início, quem ficava de fora da cena inaugural.

O que o Brasil celebra em novembro de 2026 não é simplesmente uma data. É a distância entre a narrativa oficial e a experiência de quem viveu a República como sujeito secundário. Rui Barbosa, ministro da Fazenda do governo provisório, mandou queimar os registros da escravidão no Arquivo Nacional em 1890 — decisão que até hoje dificulta o rastreamento de famílias negras. Não foi descuido burocrático. Foi uma escolha.

A Primeira República, de 1889 a 1930, foi o período em que o Estado mais investiu em branqueamento deliberado: subvencionou a imigração europeia, criminalizou práticas religiosas de origem africana, expulsou populações negras dos centros urbanos. No Rio, a Reforma Pereira Passos demoliu cortiços entre 1902 e 1906 e empurrou famílias negras para os morros — gênese geográfica de uma desigualdade que persiste em 2026. Abdias do Nascimento nomeou esse processo em O Genocídio do Negro Brasileiro (1978), quando nomear ainda era ato de resistência.

A Constituição de 1988 rompeu com esse padrão em linguagem — e parcialmente em prática. O artigo 68 do ADCT reconheceu o direito territorial das comunidades quilombolas; a Lei 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de história afro-brasileira; o STF validou as cotas em 2012, estendendo-as ao serviço público em 2017. São conquistas reais — conquistadas por movimentos negros organizados, não concedidas pela República.

O que a Constituição não entregou é igualmente legível: homens negros de 15 a 29 anos morrem por violência estatal a uma taxa três vezes maior que a de brancos na mesma faixa, segundo o Atlas da Violência. A renda média do trabalhador negro é 43% inferior à do branco. Nas 27 capitais, menos de 12% dos prefeitos eleitos em 2024 se declaram pretos ou pardos — num país em que 56% da população se identifica assim. A Constituição foi o piso, não o teto.

Lula nomeou Anielle Franco para o Ministério da Igualdade Racial — o primeiro com esse nome na história do país. Mas em 2026, véspera de novo ciclo eleitoral, o que 15 de novembro revela não é a solidez da República, e sim a tensão permanente entre o que ela prometeu e o que praticou. Os 137 anos não são aniversário de democracia consolidada. São o prazo dentro do qual homens negros brasileiros ainda esperam ser incluídos de fato.

Contexto

Abolição e República: A Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888. A República veio 16 meses depois, sem política de integração da população liberta. Cerca de 700 mil pessoas foram libertas sem terra, salário ou acesso a instrução pública.

Queima dos arquivos: Em 1890, Rui Barbosa ordenou a destruição dos documentos sobre tráfico e escravidão no Arquivo Nacional. A medida apagou a memória documental e inviabilizou rastreamentos genealógicos e reparações históricas.

Quilombolas e titulação: O artigo 68 do ADCT garante o direito às terras quilombolas desde 1988, mas em 2026 apenas 14% dos territórios certificados pela Fundação Palmares foram titulados pelo INCRA. A lei existe; a execução, não.

Cotas e acesso: Desde a Lei 12.711/2012, o percentual de estudantes negros nas federais passou de 5,9% para 28,3% em 2024 — avanço mais mensurável da Constituição no campo racial, e permanece ameaçado por revisões no Congresso.