Caderno: Brasil
Tipo: ensaio
Semana: 44
Data: domingo, 1 de novembro de 2026

Finados 2026 — os mortos que o ano pediu para lembrar

Por: Marcus Andrade
De Gérson a Glória a Pelé. Os homens e mulheres negros que partiram. Memória e política da lembrança.

Análise

No Dia de Finados, o Brasil vai aos cemitérios carregar flores para os seus mortos. Em 2026, há mortos que pedem uma visita diferente — não de luto familiar, mas de atenção política. São os homens e as mulheres negros que o ano levou, e cujas ausências dizem algo sobre o que este país ainda não sabe fazer com seus maiores.

Gérson de Oliveira Nunes morreu em abril de 2026, aos 80 anos, em Niterói. Meio-campista da seleção de 1970, bicampeão mundial, inventor de uma jogada que ficou conhecida como "a lei de Gérson" — e aqui a ironia pesa. A expressão que popularizou seu nome no imaginário nacional não foi um gol, foi um slogan publicitário dos anos 1970 que associou o futebolista ao oportunismo. Gérson passou décadas tentando desfazer esse nó. Quando morreu, as homenagens foram protocolares: nota da CBF, minuto de silêncio, cobertura esportiva. Ninguém perguntou por que o único legado que ficou foi o que ele repudiou.

Glória Maria morreu em fevereiro de 2023, mas 2026 foi o ano em que sua ausência começou a ser sentida de outro modo — na televisão que não a repôs, nos programas que não encontraram quem fizesse o que ela fazia com a mesma autoridade. Glória foi a primeira mulher negra a apresentar um telejornal no Brasil, na Globo, em 1983. Esse fato está nos registros. O que os registros não capturam é o peso de ser pioneira numa instituição que demorou décadas para reconhecer o que a pioneira significava.

Pelé morreu em dezembro de 2022, mas sua presença nos Finados de 2026 é outra: é a disputa em torno do que ele representa. O governo federal instituiu, em março deste ano, o Dia Nacional de Pelé, em 19 de novembro. A data coincide com o Dia da Consciência Negra. A sobreposição não é acidente — é política de memória, com todas as tensões que isso implica. Pelé foi o maior jogador de futebol do século XX e foi um homem que raro falou de raça em público durante décadas de carreira. Seu silêncio foi estratégia de sobrevivência num país que não perdoava o negro que se destacava e ainda incomodava. Reconhecer isso não diminui o legado — qualifica o peso que ele carregou.

A política da lembrança é isso: decidir o que se conserva e o que se deixa cair. Em 2026, o Brasil lembra seus mortos negros ilustres com homenagens que com frequência reduzem o biografado ao momento mais palatável — o gol, o sorriso, a frase de efeito. O trabalho que resta é o de recuperar a complexidade: Gérson que brigou pela própria imagem, Glória que abriu portas sem receber o crédito em vida, Pelé cujo silêncio merece interpretação antes de julgamento.

Finados é o dia em que o Brasil admite, ao menos ritualmente, que a morte tem peso. Os mortos negros deste ano — e dos anos anteriores que 2026 relembra — pedem que esse peso seja distribuído com mais cuidado. Não homenagem póstuma como absolvição coletiva. Homenagem como obrigação de entender o que se perdeu e por que se perdeu do modo que se perdeu.

Contexto

Gérson (1941–2026): Meio-campista do Botafogo, Flamengo e da seleção tricampeã de 1970. Um dos maiores armadores do futebol brasileiro. O apelido "lei de Gérson", de campanha publicitária dos anos 1970, foi contestado por ele publicamente por décadas.

Glória Maria (1949–2023): Jornalista da Globo por cinco décadas. Primeira mulher negra a apresentar um telejornal no Brasil, em 1983. Repórter de campo em mais de 70 países.

Pelé e o Dia Nacional: A Lei 14.811/2026 fixou o Dia Nacional de Pelé em 19 de novembro — mesma data do Dia da Consciência Negra. A sobreposição reacendeu o debate sobre memória, representação e os usos políticos da biografia de Edson Arantes do Nascimento.

Mortalidade: O Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP) registrou que 78% das vítimas de homicídio no Brasil em 2025 eram negras — dado que contrasta com a visibilidade reservada aos mortos célebres e o anonimato das mortes cotidianas.