Análise
No mercado público de Porto Alegre, numa manhã de outubro fria e ensolarada, Seu Neguinho abre a banca de especiarias às sete horas em ponto. Tem cinquenta e oito anos, nasceu em Pelotas, filho de lavrador. Conhece cada fornecedor da região serrana pelo nome. Quando alguém pergunta de onde ele é, responde sem ironia: "Daqui, né." A pergunta, por si só, já carrega o mapa do que significa ser negro no Sul em 2026: a presença que o imaginário regional ainda não aprendeu a admitir como autóctone.
O Sul do Brasil se vendeu por décadas como a exceção europeia do país — mais organizado, mais frio, mais branco. Os números de 2025 desmentem essa identidade sem pedir licença. Segundo o IBGE, 24% da população do Rio Grande do Sul se autodeclara preta ou parda; em Santa Catarina, 17%; no Paraná, 32%. Em Curitiba, quase um terço dos habitantes. Nas periferias dessas cidades — Uberaba, em Curitiba; Sertão Santana, no entorno de Porto Alegre; Serraria, em Florianópolis — as famílias negras configuram maioria. O Sul é branco apenas no cartaz.
Em Curitiba, Marcos, quarenta e três anos, é técnico de manutenção em uma montadora no Município de São José dos Pinhais. Trabalha há dezesseis anos na mesma empresa. Nunca foi promovido a supervisor. Dois colegas com menos tempo de casa, brancos, já subiram duas vezes. Marcos não faz drama: anota, observa, mantém o currículo atualizado. "Não vou esperar o milagre", diz. O caso dele não é exceção documentada: pesquisa da UFPR publicada em 2025 apontou que trabalhadores negros no setor industrial paranaense ganham em média 27% menos que colegas brancos com a mesma escolaridade e função.
Em Florianópolis, o Ribeirão da Ilha guarda uma das comunidades quilombolas mais antigas de Santa Catarina. Ali, Dona Perpétua, setenta e dois anos, ainda faz farinha no engenho de pedra que herdou do avô. Seus filhos e netos vivem na cidade, alguns trabalham na área de tecnologia — Floripa tem o maior polo de startups do Sul. Mas a terra do quilombo está sob pressão de especulação imobiliária desde a valorização do litoral catarinense nos anos 2010. O que Dona Perpétua chama de "nosso lugar" é, para o mercado, uma oportunidade de condomínio.
O retrato do negro no Sul em 2026 não cabe na narrativa da anomalia — como se a presença negra aqui fosse acidente de rota, e não história de quatrocentos anos de escravização, de quilombos, de imigração forçada do Nordeste para os frigoríficos e construção civil do século XX. Essa história foi sistematicamente apagada dos livros didáticos das escolas gaúchas, paranaenses e catarinenses — e começa, muito devagar, a ser reescrita. A Universidade Estadual de Londrina inaugurou em 2025 o primeiro centro de documentação afro-paranaense do estado. Em Porto Alegre, o coletivo Quilombo Urbano mapeia há três anos os endereços negros da cidade que a memória oficial insiste em ignorar.
Contexto
População negra no Sul: IBGE 2025 — Paraná: 32% de pretos e pardos; Rio Grande do Sul: 24%; Santa Catarina: 17%. Curitiba tem 31% de população negra declarada, concentrada em bairros periféricos como Sítio Cercado, Uberaba e CIC.
Desigualdade salarial: Pesquisa da UFPR (2025) registrou gap salarial de 27% entre trabalhadores negros e brancos com mesmo nível de escolaridade e função no setor industrial do Paraná. No Rio Grande do Sul, o Dieese apurou diferença de 22% no mesmo período.
Quilombos e terra: Santa Catarina tem 31 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Palmares. Apenas quatro têm processo de titulação fundiária concluído. No Rio Grande do Sul, são 137 comunidades; menos de dez com título definitivo.
Presença institucional: A UEL inaugurou em 2025 o Centro de Documentação Afro-Paranaense. A UFSC criou em 2024 a Cátedra de Estudos Afro-Sulinos. Em Porto Alegre, o coletivo Quilombo Urbano publica desde 2023 o mapa dos territórios negros históricos da cidade.