Caderno: Brasil
Tipo: análise
Semana: 40
Data: domingo, 4 de outubro de 2026

Pré-2027 — o tabuleiro se arma agora

Por: Antônio Lima
Nomes para presidenciável, governadores em ciclo final, dança do Centrão. Lula tentará o 4º, Haddad lança? O que já está em jogo.

Análise

Fernando Haddad não anunciou candidatura. Não precisa. Em Brasília, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, já perdeu dois financiadores do Sudeste para o campo petista depois de julho. O ex-governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, circulou em três eventos em São Paulo entre agosto e setembro sem anunciar filiação — e com agenda que só faz sentido como pré-campanha. O tabuleiro de 2027 está sendo montado agora, em outubro de 2026, enquanto o Congresso discute LDO e o governo finge que falar em eleição é falta de respeito ao calendário.

Lula completa 81 anos em outubro. Médicos do Sírio-Libanês deram aval público à sua condição cardiovascular em agosto. O PT decidiu, em reunião do Diretório Nacional em 14 de setembro, não lançar candidato próprio antes de março de 2027 — mas a decisão é protocolar. O que circula nos corredores do partido é que Lula vai ao quarto mandato se os números de aprovação se sustentarem acima de 42% até fevereiro. Em setembro, o Datafolha registrou 44% de aprovação ótima/boa. A margem existe; a decisão, não.

Haddad joga diferente. O ministro da Fazenda construiu uma narrativa de gestor fiscal responsável que não conflita com o discurso social do PT — difícil equilíbrio que ele mantém desde a aprovação do arcabouço em 2023. Sua base eleitoral potencial está nas capitais com renda média e nas universidades federais. O problema: no Norte e no Nordeste, onde o PT ganha eleições presidenciais, Haddad tem 18% de preferência espontânea contra 61% de Lula, segundo pesquisa Quaest de agosto. Sem herança territorial, presidenciável não vira presidente.

O Centrão está dançando. O PSD de Gilberto Kassab tem 42 deputados federais e seis governadores em mandato terminal em 2026 — incluindo os do Pará, Goiás e Santa Catarina. Kassab já sinalizou que o partido não pode chegar a 2027 sem candidato próprio ou vice numa chapa viável. O MDB de Michel Temer, agora com Baleia Rossi na presidência, negocia posição de vice para qualquer chapa que lidere o centro. O União Brasil de Luciano Bivar mira o ministério da Infraestrutura como moeda de adesão. O preço do Centrão já está tabelado; o comprador, ainda não.

Nos estados, a geometria é mais clara. No Ceará, Elmano de Freitas termina o mandato com 67% de aprovação — e descarta presidenciável, mas não descarta vice. Em Pernambuco, Raquel Lyra (PSDB) termina o primeiro mandato com aprovação de 51% e já abriu comitê informal de campanha para 2030 — o que significa que 2027 é ano de sinalização para fora do estado. Em Minas, o governador Romeu Zema (Novo) está constitucionalmente impedido de disputar o terceiro mandato: vai virar cabo eleitoral de quem oferecer pauta liberal de segurança fiscal.

Para homens negros em posição política — vereadores, deputados estaduais, lideranças comunitárias — o ciclo pré-2027 é o momento de negociar posição antes que as chapas fechem. Historicamente, o Centrão acomoda nomes negros em cargos de segundo escalão de chapa ou em secretarias de menor peso orçamentário. A dança do tabuleiro que acontece agora em outubro determina quem senta à mesa quando o governo de 2027 se forma — e quem fica do lado de fora esperando uma portaria.

Contexto

Lula e o 4º mandato: Datafolha setembro 2026 aponta 44% de aprovação ótima/boa. PT decidiu em 14/09 não lançar candidato antes de março de 2027. Decisão formal; cenário real depende de fevereiro.

Haddad presidenciável: preferência espontânea de 18% no Norte/Nordeste vs. 61% de Lula (Quaest, agosto). Base potencial concentrada em capitais de renda média e universidades federais — território insuficiente para vitória presidencial.

Centrão em leilão: PSD com 6 governadores em mandato terminal, MDB mira vice, União Brasil quer Infraestrutura. Nenhum partido fechou posição — negociação segue até março de 2027.

Governadores-chave: Elmano (CE) com 67% de aprovação descarta presidenciável; Raquel Lyra (PE) sinaliza fora do estado; Zema (MG) impedido de 3º mandato, vira cabo eleitoral de agenda fiscal.