Caderno: Brasil
Tipo: reportagem
Semana: 38
Data: domingo, 20 de setembro de 2026

Violência policial contra jovens negros — o ano até aqui

Por: Antônio Lima
Dados do Monitor da Violência. Quem, onde, como. Os estados em piora, os em melhora. Mapa e gráficos.

Análise

O Monitor da Violência registrou 4.872 mortes por intervenção policial no Brasil entre janeiro e agosto de 2026 — média de 20 mortes por dia. De cada dez vítimas, oito são negras. De cada dez vítimas negras, seis têm menos de 30 anos. A reportagem de setembro não começa com o Dia da Juventude Negra: começa com esse número, porque o número precede qualquer data comemorativa e sobrevive a ela.

A tese que os dados sustentam é incômoda para qualquer governo: o perfil da vítima de violência letal policial no Brasil de 2026 não mudou em relação a 2015, a 2010 ou a 2001. Mudaram as gestões estaduais, mudaram os secretários de segurança, mudaram os protocolos. O perfil permanece: jovem, negro, periférico, sem passagem — porque a grande maioria das vítimas não tinha antecedentes criminais quando morreu. O que mudou é o mapa. E o mapa exige análise estado a estado.

Rio de Janeiro e Bahia lideram em volume absoluto. O Rio somou 892 mortes por intervenção policial nos oito meses, número 12% abaixo do registrado no mesmo período de 2025 — resultado atribuído pela Secretaria de Segurança ao programa de câmeras corporais implantado em março. A Bahia registrou 741 mortes, alta de 8% no período, concentrada no Subúrbio Ferroviário de Salvador e nos municípios do Recôncavo. Em Feira de Santana, as mortes por intervenção policial cresceram 34% em relação ao mesmo período do ano anterior. Não há câmera corporal na maioria das PMs do interior baiano.

O Pará é o estado em piora mais acelerada do mapa. As 318 mortes registradas entre janeiro e agosto representam alta de 41% sobre 2025, impulsionadas pelas operações nas regiões de garimpo ilegal no sudeste paraense — operações que, segundo o Ministério Público do estado, vitimaram majoritariamente jovens negros sem envolvimento documentado com atividade garimpeira. Em Marabá, ribeirinhos e agricultores aparecem nas estatísticas ao lado de suspeitos sem identificação. A confusão não é erro de coleta: é metodologia.

Os estados em melhora relativa são São Paulo, Minas Gerais e Ceará. São Paulo caiu de 512 para 431 mortes no período — redução de 16%, a maior do país. A Ouvidoria da Polícia atribui o resultado a três fatores: uso obrigatório de câmeras corporais desde 2024, protocolo de desescalada em abordagens e responsabilização administrativa em tempo real. Não é argumento ideológico: é dado. O Ceará, que em 2021 registrou mais de 1.100 mortes em doze meses, contabilizou 203 em oito meses de 2026 — a trajetória de queda mais consistente do Nordeste. O modelo cearense combina redução de operações de choque com investimento em inteligência e mediação comunitária em Fortaleza.

O padrão que atravessa todos os estados é o seguinte: onde há câmera corporal, accountability administrativo e integração com o Ministério Público, as mortes caem. Onde há operações de grande porte sem supervisão independente, as mortes sobem — e o perfil das vítimas não muda. A variável não é a violência do crime organizado, que cresceu em quase todos os estados. A variável é o controle sobre o uso da força. Jovens negros não morrem mais porque há mais crime: morrem mais onde há menos controle. Essa distinção é o que separa política pública de discurso de segurança.

Contexto

Monitor da Violência (jan.–ago. 2026): 4.872 mortes por intervenção policial no Brasil. 80% das vítimas negras; 60% dessas com menos de 30 anos (G1/FBSP).

Estados em piora: Pará (+41%, 318 mortes), Bahia (+8%, 741), Maranhão (+19%, 187). No Pará, operações no sudeste garimpeiro concentram 44% das ocorrências estaduais (MP-PA, ago. 2026).

Estados em melhora: São Paulo (−16%, 431 mortes), Ceará (−22%, 203), Minas Gerais (−9%, 312). Câmera corporal e protocolo de desescalada são os denominadores comuns (ouvidorias SP e CE).

Perfil das vítimas: 71% sem antecedentes criminais (DEPEN/Monitor 2026). Faixa predominante: 18–25 anos. Feira de Santana-BA: +34%, maior concentração relativa do período.