Caderno: Brasil
Tipo: reportagem
Semana: 35
Data: segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Brasília, Goiânia, Cuiabá — o Brasil central em 2026

Por: João Batista Baiano
A região que cresce, o agro que domina, os quilombos que resistem. Retrato de três capitais.

Análise

Há uma cena que se repete nas três capitais do Brasil central em 2026: um homem de meia-idade, pele escura, capacete na mão, saindo de um canteiro de obras às seis da tarde. Em Brasília, ele vai para a Ceilândia. Em Goiânia, para o Jardim Novo Mundo. Em Cuiabá, para o bairro do Porto. É ele quem ergue os silos, pavimenta as rodovias do agro, instala os painéis solares das fazendas sojicultoras — e é ele quem, na maioria das vezes, não aparece na fotografia do sucesso da região.

O Centro-Oeste cresceu 4,7% em 2025, segundo o IBGE, puxado pela expansão da soja em Mato Grosso e pelo setor de construção civil em Goiás e no Distrito Federal. O agronegócio representa 62% do PIB mato-grossense e 38% do goiano. Esses números circulam nos painéis da CNA e nos discursos do governador Mauro Mendes. Mas há outra estatística que não aparece nesses painéis: 51% da população rural negra e parda do Centro-Oeste ainda não tem acesso a saneamento básico, conforme o Censo 2022 consolidado em 2024. O crescimento existe. A quem ele serve é uma outra pergunta.

Em Brasília, a expansão se dá para além do Anel Viário. Samambaia Norte e Recanto das Emas concentram hoje mais de 600 mil habitantes — maioria negra, maioria trabalhadora do setor de serviços. Jonas, 38, motorista de aplicativo nascido em Sobradinho, faz 14 horas por dia rodando entre o Plano Piloto e as cidades-satélite. "O Plano é onde a gente trabalha. Ceilândia é onde a gente vive", diz ele numa tarde de agosto, esperando numa fila de postos de combustível na EPTG. A frase resume a arquitetura racial do DF: o planejamento de Niemeyer nunca incluiu a população que tornaria a cidade possível.

Goiânia vive uma tensão diferente. A metrópole cresce em direção a Aparecida de Goiânia e Trindade, absorvendo migrantes do Nordeste e do interior goiano — muitos deles negros, muitos deles pentecostais, muitos deles votando em candidatos que combinam prosperidade gospel com pautas ruralistas. O homem negro goiano de 2026 negocia uma identidade em que raça e fé frequentemente entram em conflito com solidariedade de classe. A liderança evangélica substitui o sindicato, a cura substitui o sistema de saúde, o empreendedorismo individual substitui a política pública. Não é alienação — é adaptação a um Estado ausente.

Cuiabá é onde os quilombos resistem com mais clareza. Às margens do rio Cuiabá e no Pantanal sul-mato-grossense, comunidades como Lagoinha e Mimoso mantêm territórios que o agronegócio pressiona sistematicamente. O Incra abriu cinco processos de delimitação em MT em 2025. Gilberto, 55, pescador e liderança quilombola da comunidade do Chumbo, a 90 km de Cuiabá, acompanha cada avanço do desmatamento com um mapa desenhado à mão na parede de sua casa. "Quando o mato some, o peixe some", diz ele. É ecologia e é história: o mesmo processo que empurra a fronteira agrícola é o que apaga os rastros de ocupação secular de comunidades negras no cerrado.

Contexto

Crescimento econômico: Centro-Oeste cresceu 4,7% em 2025 (IBGE); agro representa 62% do PIB de MT e 38% do goiano. Goiás cresceu 3,9%, puxado por construção civil e agroindústria; DF cresceu 3,1%, concentrado em serviços.

Desigualdade racial urbana: 51% da população rural negra e parda do Centro-Oeste sem saneamento básico (Censo 2022/IBGE 2024). Ceilândia, Samambaia e Recanto das Emas somam 620 mil habitantes — IDH 30% abaixo do Plano Piloto. Em Goiânia, renda média do trabalhador negro equivale a 58% da do trabalhador branco (PNAD 2025).

Quilombos no Cerrado: Incra abriu 5 processos de delimitação em MT em 2025; 12 comunidades aguardam título há mais de 10 anos. Pressão fundiária gerou 14 ações de reintegração de posse contra quilombolas na região entre 2023 e 2026 (CPT).

Religião e política: 62% dos eleitores negros de Goiânia se identificam como evangélicos (Datafolha 2025); bancada ruralista-evangélica elegeu 8 dos 17 deputados federais goianos em 2026.