Análise
Em agosto de 2026, o governo Lula 3 completou trinta e dois meses e o balanço da reforma agrária já não cabe numa promessa de campanha. Foram 487 mil famílias assentadas entre outubro de 2023 e junho de 2026, segundo o Incra — número que supera, em ritmo, o primeiro mandato Lula, mas que ainda deixa 180 mil famílias acampadas à beira de rodovias no Pará, Maranhão e Mato Grosso do Sul. Já a titulação quilombola avançou de forma que nenhum governo havia alcançado desde a Constituição de 1988: 214 comunidades receberam título definitivo até julho, contra 63 do período 2019–2022. Terra titulada é terra que pode receber crédito, escola, eletrificação — é a diferença entre existir no mapa e existir no Estado.
O Crédito Fundiário desembolsou R$ 4,2 bilhões desde 2023, com 38% dos beneficiários sendo chefes de família negros. Mas o crédito não resolve o que a violência desfaz. O Observatório da Violência no Campo registrou 89 assassinatos de lideranças rurais em 2025, maior número desde 2017 — 70% delas negras ou indígenas. O MST e a CPT nomeiam o padrão: não é acidente, é estratégia do latifúndio de tornar a luta biologicamente inviável.
Para o homem negro sem escritura e sem herança partilhada, a reforma agrária de Lula 3 tem dois andares que não se comunicam. No primeiro, os números federais mostram avanço real. No segundo, o chão de terra batida do acampamento revela que desapropriar e assentar não é o mesmo que garantir permanência. Rafael, 41, sem-terra de Corumbiara, Rondônia, aguarda há sete anos um lote prometido em 2019. Sua história não é exceção: é a mediana do sistema.
O avanço quilombola merece leitura separada. A Fundação Cultural Palmares recertificou 1.340 comunidades até maio de 2026. Lélia Gonzalez já nos ensinou que quilombo não é resto — é projeto. Quando Anielle Franco negociou com o Ministério da Fazenda a inserção das comunidades quilombolas no Plano Safra 2025/2026, ela traduziu esse projeto para o idioma do orçamento: R$ 1,1 bilhão em crédito rural, o maior volume histórico, ainda insuficiente diante de uma dívida de séculos.
O impasse para 2027 é estrutural. O PL 2630/2025, patrocinado pelo bloco ruralista, e uma PEC em tramitação ameaçam reverter desapropriações por "interesse social" e limitar o Incra em terras com litígios pendentes. O governo tem maioria para barrar, mas cada votação tem preço — a bancada do agronegócio cobra em concessões ambientais. A reforma não está garantida; ela existe enquanto o Planalto decide que o custo de defendê-la é menor do que o custo de perdê-la. O que falta para 2027: segurança jurídica dos títulos, proteção física das lideranças, crédito automático vinculado à titulação quilombola — sem depender de negociação orçamentária anual.
Contexto
Desapropriações 2023–2026: 487 mil famílias assentadas pelo Incra; 2,3 milhões de hectares incorporados ao programa de reforma agrária, concentrados no Cerrado e Amazônia Legal. Meta do PPA 2024–2027 é 550 mil famílias — a 89% do cumprimento até agosto de 2026.
Titulações quilombolas: 214 títulos definitivos emitidos desde janeiro de 2023; 78 processos novos abertos pelo Incra. Comunidades no Pará, Bahia e Maranhão concentram 61% dos títulos. Tempo médio de tramitação caiu de 14 para 9 anos após reforma interna da FCP em 2024.
Violência no campo: 89 assassinatos de lideranças rurais em 2025 (CPT/Observatório da Violência no Campo); 70% das vítimas negras ou indígenas. Mato Grosso do Sul e Pará lideram. Programa de proteção a defensores do território — criado em 2024 — atende 312 lideranças com escolta e monitoramento.
Crédito rural quilombola: R$ 1,1 bilhão no Plano Safra 2025/2026; aumento de 340% em relação ao Safra 2022/2023. Operado via Banco do Brasil e BNB, com 68% dos contratos assinados por homens negros entre 25 e 45 anos.