Análise
No arraial de Nossa Senhora do Rosário em Contagem, Minas Gerais, o rei Congo do Congado Mineiro caminha com a coroa na cabeça e os pés descalços na terra vermelha. Ele não está encenando. Está cumprindo uma obrigação que passa de pai para filho há cinco gerações na família Ferreira. Quando alguém na plateia chama aquilo de folclore, o capitão-mor da guarda, Seu Domingos, 67, responde sem virar o rosto: "Folclore é o que você não entende." A palavra foi criada em 1846 pelo britânico William Thoms para classificar o que a modernidade europeia considerava sobrevivência do passado. Usá-la para o Congado — religião, ancestralidade, política e dança numa única procissão — é um enquadramento que diz mais sobre quem classifica do que sobre o que é classificado.
O Dia do Folclore, celebrado em 22 de agosto, chegou a 2026 como uma data ambígua. Para o Ministério da Cultura, é ocasião de inventário; para os mestres das tradições afro-brasileiras, é uma convocação involuntária para a vitrine. O maracatu de baque virado de Recife, o jongo do Sudeste, o cavalo-marinho da Zona da Mata pernambucana — cada um desses complexos culturais tem praticantes que recusam a etiqueta de folguedo regional. São sistemas de conhecimento com gramática própria, hierarquia de iniciação, calendário litúrgico. Quando o Estado os chama de folclore, o que está fazendo é administrá-los.
No jongo do Quilombo São José da Serra, em Valença, Rio de Janeiro, os jongueiros usam o termo com ironia deliberada. Mestre Mazinho, 58, que aprendeu com a avó e hoje ensina os mais jovens no terreiro, diz que o Estado só aparece com câmera em agosto. Em fevereiro, quando a cobertura do barracão estava cedendo, o IPHAN levou quatro meses para responder o ofício. O jongo está na lista do Patrimônio Imaterial da Humanidade da Unesco desde 2005 — o que garantiu visibilidade internacional e zero reais de manutenção direta.
O cavalo-marinho do Litoral Norte pernambucano é talvez a manifestação que mais ressente a palavra. Seu Biu Alexandre, mestre em Condado, morreu em 2021 levando consigo um repertório de figuras e toadas que seus discípulos passaram os anos seguintes tentando reconstituir. O Ponto de Cultura local, que financiava os ensaios, teve o convênio suspenso em 2023. Em 2026, o grupo ensaia às sextas na garagem de um dos brincantes. A transmissão oral continua, mas sobre infraestrutura mínima — e com a consciência de que cada mestre morto é um arquivo que não se restaura.
O que os mestres dizem em 2026, quando perguntados diretamente, é que a palavra folclore os torna decorativos. Ela permite ao Estado celebrar sem financiar, documentar sem proteger, incluir no calendário oficial sem incluir no orçamento. O Congado, o maracatu, o jongo e o cavalo-marinho são, cada um à sua maneira, formas de preservação de uma memória que o Brasil oficial tentou apagar. Chamá-los de folclore é uma forma educada de continuar o mesmo apagamento.
Contexto
Congado Mineiro: Devoção afro-católica a Nossa Senhora do Rosário, com guardas em hierarquia militar-religiosa. Mais de 200 municípios mineiros. Sem linha de financiamento federal contínua — depende de editais pontuais e patrocínio municipal.
Maracatu de baque virado: Sistema musical e religioso de Recife com raízes no candomblé. Doze nações ativas em 2026; quatro com sede própria. Financiamento via Lei Paulo Gustavo em risco após contingenciamento de 2025.
Jongo: Patrimônio Imaterial da Humanidade (Unesco, 2005). Comunidades no Vale do Paraíba sem verbas diretas de manutenção. O IPHAN salvaguarda, mas não financia — lacuna legal não corrigida.
Cavalo-marinho: Mestre Biu Alexandre (Condado-PE) morreu em 2021 sem registro completo de repertório. Pontos de Cultura suspenderam convênios em 2023. Em 2026, grupos ensaiam sem espaço fixo; transmissão depende da memória dos brincantes mais velhos.