Caderno: Brasil
Tipo: retrato
Semana: 32
Data: domingo, 9 de agosto de 2026

Pais negros brasileiros — cinco retratos em agosto

Por: João Batista Baiano
Salvador, Rio, São Paulo, Recife, Porto Alegre. A paternidade no país que ainda mata filho negro na esquina.

Análise

No segundo domingo de agosto, Salvador acorda com o cheiro de tapioca na frigideira e o som da televisão baixo, para não acordar a criança. Márcio, 38, motorista de aplicativo no bairro do Cabula, passa a manhã em casa pela segunda vez em três semanas. A filha de sete anos dorme abraçada a um caderno de desenho. Márcio trabalha de sexta a domingo, das 6h às 22h, porque é quando a corrida paga. O Dia dos Pais cai num domingo de agosto, e ele está presente — por força de calendário, não de folga.

No Rio de Janeiro, Cláudio, 44, gari da Comlurb na Zona Norte, acordou antes das cinco porque o turno começa às seis mesmo no domingo festivo. Ele volta ao meio-dia, tempo suficiente para o churrasco que a namorada organizou no terraço da casa alugada em Madureira. O filho mais velho, Kauan, 17, está lá. O do meio, Lucas, 14, está na casa da avó materna em Queimados. Cláudio diz que tenta estar presente, mas presença é complicada quando você é o único salário da casa e o bairro cobra o filho mais velho de formas que você não consegue ver do trabalho.

Em São Paulo, Wellington, 51, operador de logística em Guarulhos, passou o Dia dos Pais de 2026 num hospital. O neto, filho do seu filho Gabriel, morto em 2022 numa abordagem policial no Jardim Romano, nasceu em 7 de agosto. Wellington virou pai-avô num mesmo movimento — o homem negro que sobreviveu vira âncora dos que ficaram. Essa transferência de paternidade entre gerações é invisível nos estudos sobre família negra; aparece, porém, nas estatísticas de guarda informal, onde avós e tios respondem por 23% das crianças negras no CadÚnico.

Em Recife, Jonas, 29, professor de capoeira no Alto Santa Terezinha, passou o dia com os oito alunos que aparecem mesmo quando não há aula obrigatória. Ele não tem filhos biológicos registrados, mas os meninos de 9 a 14 anos do bairro o chamam de mestre e aparecem na porta da sua casa quando algo vai mal na rua. A paternidade que Jonas exerce não tem certidão. Tem continuidade, disciplina, o corpo do menino a salvo por mais uma tarde. No Brasil que ainda mata filho negro na esquina, isso é uma política de sobrevivência.

Porto Alegre fecha o retrato. Everaldo, 56, aposentado da metalurgia, criou quatro filhos no bairro Lomba do Pinheiro e em agosto de 2026 espera o primeiro neto de uma filha que migrou para Curitiba. Ele fala de paternidade como prática de resistência — palavra que usa sem romantismo, como quem descreve o ato de não abandonar. Quatro filhos, dois empregos por vinte anos, nenhum deles preso, nenhum deles morto. Para Everaldo, esse é o balanço — para o país, deveria ser o mínimo.

O que esses cinco retratos têm em comum não é abnegação: é a equação impossível de estar presente em corpos que o mercado e a violência do Estado colocaram em trânsito permanente. A paternidade negra opera sob pressão dupla — ser o provedor que o capitalismo periférico exige e o escudo que o racismo institucional torna necessário. Quando o filho morre na esquina, o pai vira estatística de luto não contabilizado. Quando o filho vive, a presença paterna raramente é registrada como conquista.

Contexto

Guarda informal: 23% das crianças negras no CadÚnico têm avós ou tios como responsáveis legais (MDS, 2025). Transferência de paternidade após morte violenta do pai jovem — dado invisível nas políticas de família.

Letalidade e luto: Atlas da Violência 2025: 76% das vítimas de homicídio masculino são negras. Não há protocolo público de suporte ao luto para pais que perdem filhos em abordagens policiais ou conflitos territoriais.

Trabalho em escala: Homens negros são 68% dos trabalhadores em regimes de escala (garis, motoristas, operadores, vigilantes) nas capitais pesquisadas (PNAD Contínua 2025). Escalas de sexta a domingo significam ausência sistemática nos dias de convívio familiar.

Tutoria comunitária: Mestres de capoeira e grupos culturais periféricos exercem tutoria masculina informal para cerca de 180 mil jovens nas capitais (Ipea, 2024) — sem financiamento público nem reconhecimento no sistema de proteção social.