Análise
Em Tefé, na terceira semana de julho de 2026, o rio Solimões marcava 8,3 metros no posto fluviométrico da ANA — 2,1 metros abaixo da cota histórica para o período. Onde deveriam estar os barcos dos ribeirinhos havia faixa larga de argila rachada e troncos encalhados. Raimundo, 52, pescador de malhadeira desde os doze anos, parou de soltar as redes no dia 8 de julho: o lago que abastecia sua comunidade, a quinze minutos de canoa da sede de Tefé, estava seco pela segunda vez em três anos.
A seca de 2026 chegou mais cedo do que a de 2023, considerada a pior do século na bacia do alto Solimões. Em Coari, o rio Urucu caiu para 6,7 metros em 12 de julho — abaixo do piso que suspende o tráfego de embarcações maiores. As comunidades ribeirinhas ao longo do trecho dependem do barco-hospital da Secretaria Estadual de Saúde, que chega em média a cada 34 dias — intervalo que se torna meses quando o calado não permite a navegação.
Em Fonte Boa, Benedito, 47, agricultor familiar e presidente da associação comunitária do ramal do Igarapé do Acuí, perdeu 60% da produção de mandioca prevista para outubro. A raiz apodrece quando o solo seca rápido demais no período que deveria ser o das chuvas leves de julho. "Ano passado fiquei sem farinha pra vender. Esse ano nem sei se vou ter pra comer", disse, sentado na sombra de uma seringueira. Seu relato é idêntico ao de dezenas de associações mapeadas pelo Idam na vistoria de julho.
O INPA registrou em seu boletim de julho que a temperatura da superfície do Solimões entre Tefé e Coari estava 1,8°C acima da média histórica para o mês. A combinação de El Niño residual com o aquecimento de fundo produz secas mais precoces e mais profundas do que o conhecimento acumulado de gerações de ribeirinhos foi construído para enfrentar. O ciclo das águas que organiza a vida no Amazonas não foi substituído por nenhum sistema equivalente de adaptação pública.
Quem habita esses rios é, em sua maioria, população negra, indígena e cabocla — categorias que o IBGE agrupa sem distinção de território ou de história. O ribeirinho negro do médio Solimões descende de quilombolas que subiam os afluentes para escapar dos capitães do mato no século XVIII, de trabalhadores forçados que sangravam seringueiras no início do XX. Essa história não aparece nos boletins hidrológicos, mas explica por que a ausência do Estado na beira do rio não é surpresa — é continuidade.
O Plano de Prevenção à Seca Amazônica, lançado em março de 2026 com R$ 620 milhões, previa cisternas, sementes resistentes e ampliação da frota do Samu Fluvial. Até 15 de julho, 12% do valor havia sido empenhado. Em Tefé, Coari e Fonte Boa, os técnicos do Idam aguardavam as sementes previstas para abril. O rio não espera o calendário da administração pública.
Contexto
Nível dos rios — julho de 2026: ANA registrou, em 15 de julho, Solimões em Tefé a 8,3 m (mínimo histórico para o mês: 9,6 m); Rio Urucu em Coari a 6,7 m (abaixo do limite de navegabilidade comercial de 7,2 m). O INPA estima que o pico da seca ocorra entre agosto e setembro, com possibilidade de cotas ainda menores do que 2023.
Impacto na produção alimentar: O Idam mapeou, em vistoria de campo entre 6 e 14 de julho, perda média de 55% na produção de mandioca em 47 comunidades ribeirinhas nos municípios de Tefé, Coari e Fonte Boa. A farinha d'água deve ter aumento de preço estimado em 40% até outubro nos mercados municipais da região.
Plano federal e execução: O Plano de Prevenção à Seca Amazônica (Portaria MDR 218/2026) tem dotação de R$ 620 milhões para 2026. Execução até 15 de julho: R$ 74,4 milhões empenhados (12%). O Samu Fluvial opera com 6 embarcações para atender 47 municípios no Amazonas — capacidade prevista no plano era de 11 embarcações até junho.